Os resultados financeiros de grandes companhias aéreas brasileiras, divulgados no fechamento do terceiro trimestre de 2025 (3T25), revelam informações valiosas sobre os rumos e a dinâmica da economia nacional no período. Mais do que relatórios contábeis, balanços de GOL , Latam e Azul funcionam como termômetros econômicos: captam oscilações de demanda, refletem o ritmo dos negócios, respondem às políticas macroeconômicas e traduzem a capacidade de crescimento, adaptação e resiliência do setor frente à conjuntura brasileira.
A seguir, apresentamos um panorama analítico, explorando os principais resultados das empresas e explicando as múltiplas relações entre o desempenho das companhias aéreas e o perfil da economia do país no terceiro trimestre de 2025.
Resultados Financeiros do 3T25 — Quadro Resumo
| Indicador | GOL | Latam | Azul |
| Receita Líquida | R$ 5,54 bilhões | US$ 3,856 bilhões (~R$ 20,3 bi) | R$ 5,74 bilhões |
| Lucro Líquido | R$ 248 milhões | US$ 379 milhões (~R$ 2 bi) | -R$ 644 milhões |
| EBITDA | R$ 1,64 bilhões | US$ 1,150 bi (EBITDAR ajust.) | R$ 1,99 bilhões |
| Margem EBITDA | 29,7% | (não divulgado) | 34,6% |
| Dívida Líquida | R$ 19,7 bilhões | índice de 1,5x receitas líquidas | (não divulgado) |
| Passageiros Transportados | (não divulgado) | 22,9 milhões | (não divulgado) |
| Oferta Assentos (ASK) | +8,9% (trimestre) | (não divulgado) | +7,1% (tri./tri.) |
| RPK (Receita por KM Paxeiro) | +2,5% (tri./tri.) | (não divulgado) | (não divulgado) |
| Destaque operacional | Lucro revertido, expansão internacional, pontualidade recorde | Forte crescimento, guidance revisado, expansão de voos | Recorde operacional e EBITDA, prejuízo líquido elevado |
Expansão da demanda: espelho da economia
A alta nas receitas líquidas da GOL (11,6%), Latam (17,3%) e Azul (11,8%) revela um ambiente de demanda aquecida no país. O aumento significativo da oferta de assentos (+8,9% na GOL e +7,1% na Azul), especialmente em rotas internacionais, indica maior circulação de pessoas, fortalecimento do turismo, recuperação dos negócios e disposição de empresas e consumidores em investir em deslocamentos aéreos. Tal cenário só acontece em economias que apresentam sinais de estabilização pós-crise — no caso do Brasil, reação ao encarecimento do crédito, controle inflacionário e políticas de estímulo à indústria.
2. Rentabilidade e eficiência operacional
O setor aéreo brasileiro demonstrou ganhos de eficiência e capacidade de ajuste de custos no período. A margem EBITDA recorrente da GOL alcançou 29,7%, resultado impulsionado por custos menores de combustível (queda de 3,7% no preço médio) e aumento de produtividade. A Azul atingiu marca histórica de EBITDA de R$ 1,99 bilhões, com margem de 34,6%, sustentada por redesenho de malha, ampliação de suas unidades de negócios (Azul Fidelidade e Azul Viagens) e otimização de estrutura de capital.
Latam , por sua vez, revisou para cima as projeções anuais após um 3T25 marcado por sólido fluxo de caixa e crescimento operacional. Aqui há sinais de maturidade e disciplina financeira, essenciais em contextos de custos variáveis e volatilidade cambial.
3. Lucro e prejuízo: reflexos de estrutura e contexto
O retorno ao lucro líquido pela GOL (R$ 248 milhões) e pelo Latam (US$ 379 milhões) evidencia não apenas recuperação do setor, mas também habilidade das companhias de navegar pressões de custos, renegociar dívida e ajustar oferta à demanda. O prejuízo reportado pela Azul (-R$ 644 milhões) expõe fragilidades internas (despesas financeiras elevadas) e, indiretamente, desafios da macroeconomia nacional: taxas de juros ainda altas, volatilidade cambial e limitações de acesso a crédito são fatores amplificados nos balanços do setor, que é estruturalmente mais endividado.
4. Endividamento e liquidez
A dívida líquida ainda elevada na GOL (R$ 19,7 bi) e no setor como um todo revela que, a despeito da retomada operacional, as companhias dependem fortemente do ambiente financeiro nacional. A liquidez disponível indica espaço para investimentos e “fôlego” para enfrentamento de oscilações futuras, mas depende do contexto de taxas de juros e da credibilidade do sistema bancário nacional. Em 2025, as reformas para facilitar crédito e desoneração de tarifas contribuíram para melhores resultados setoriais.
5. Expansão internacional, turismo e cadeia produtiva
O crescimento das operações internacionais (+34,5% na GOL , +30,5% na Azul ), aliado ao aumento de passageiros transportados, revela impulsos positivos no turismo emissivo e receptivo brasileiro e fortalece os elos da cadeia produtiva de serviços, indústria e comércio. Esse dinamismo gera empregos, fomenta setores como hotelaria, alimentação e eventos, e contribui diretamente para o PIB nacional.
6. Eficiência x pressão de custos
Os resultados do trimestre também revelam que, apesar da melhora nos principais indicadores, o setor lida com pressões persistentes vindas dos custos operacionais, especialmente despesas financeiras e impacto do dólar sobre leasing de aeronaves, combustível e manutenção. A performance das empresas demonstra capacidade de administração desses riscos, mas destaca o papel da estabilidade macroeconômica brasileira como fator-chave para a sustentabilidade do setor.
Gráfico Resumo dos Principais Indicadores (3T25)
| Empresa | Receita Líquida | Lucro Líquido | EBITDA | Margem EBITDA | Dívida Líquida | Cresc. Oferta (ASK) | Cresc. Op. Internac. |
| GOL | R$ 5,54 bi | R$ 248 mi | R$ 1,64 bi | 29,7% | R$ 19,7 bi | +8,9% | +34,5% |
| Latam | ~R$ 20,3 bi | ~R$ 2 bi | ~R$ 5 bi | — | ~R$ 3,6 bi | — | — |
| Azul | R$ 5,74 bi | -R$ 644 mi | R$ 1,99 bi | 34,6% | — | +7,1% | +30,5% |
Cenário global das companhias aéreas: entre crises e superações
O setor aéreo mundial é notório por enfrentar desafios financeiros recorrentes. Problemas como altos custos operacionais, dependência de insumos dolarizados, gargalos logísticos, volatilidades cambiais e crises sanitárias frequentemente lançam companhias aéreas — inclusive as gigantes internacionais — em ciclos de prejuízos, renegociações, fusões e até falências. Mesmo em tempos de demanda robusta, a atividade opera com margens mínimas e exposição constante a choques externos, como variações drásticas no preço do petróleo, atrasos na cadeia de suprimentos (aviões, peças, motores) e oscilações bruscas do dólar, que afetam principalmente países emergentes.
Em 2025, o cenário global permanece marcado pelos impactos persistentes da pandemia, gargalos logísticos e escalada de custos: estima-se que os atrasos na cadeia de suprimentos teriam sido responsáveis por mais de US$ 11 bilhões em despesas extras para o setor mundial, segundo a IATA. Empresas de todos os continentes lutam para equilibrar finanças diante de demandas crescentes, mas limitada capacidade operacional, custos de leasing em alta (com prêmios 20% a 30% maiores desde 2019) e a necessidade de manutenções e reposição de peças tornam praticamente inescapáveis os movimentos de renegociação de dívidas e reestruturação.
Como as empresas brasileiras enfrentaram e superaram a turbulência até aqui
A experiência das companhias aéreas brasileiras — exemplificada por GOL , Latam e Azul — é emblemática da resiliência e da capacidade de superação do setor local frente ao quadro global adverso.
Após enormes prejuízos durante o auge da pandemia, quando as operações foram praticamente paralisadas, as empresas adotaram medidas duras e inovadoras para sobreviver:
- Renegociação de dívidas e contratos de leasing: Azul e Gol renegociaram valores e prazos de dívidas bilionárias, ampliando prazos com arrendadores e fornecedores, muitas vezes utilizando ativos estratégicos como garantia (aeronaves, programas de fidelidade) ou acessando pools de recebíveis para captar crédito com melhores taxas.
- Redesenho de operação e corte de rotas deficitárias: A redução temporária de frotas e concentração em rotas com maior demanda permitiu a maximização da rentabilidade mesmo em períodos de volume reduzido de passageiros.
- Captação de recursos e aumento de capital: GOL e Latam viabilizaram aumentos de capital e emissão de novos títulos, muitas vezes com demanda internacional, para fortalecer caixa e financiar investimentos estratégicos.
- Processos judiciais de recuperação: Latam (Chapter 11 nos EUA) e Gol buscaram proteção contra credores e tempo para reorganizar passivos e projetar retomada sustentável, aproveitando brechas legais que permitiram suspender pagamentos e renegociar condições em novos termos.istoedinheiro+2
- Ajuste de custos, inovação e disciplinada gestão do fluxo de caixa: Transparência, disciplina na utilização dos recursos, negociação agressiva com fornecedores, foco em tecnologia e simplificação de operações tornaram as companhias mais eficientes, permitindo transformar lucro operacional em resultados líquidos positivos.
O saldo do 3T25 é que, apesar do ambiente notoriamente hostil e da crônica fragilidade do setor, as empresas brasileiras conseguiram captar sinais positivos, reverter parte dos prejuízos históricos e entregar resultados que apontam para uma estabilização — pelo menos até a próxima grande “turbulência”.
Perspectivas e aprendizados para o futuro
O setor aéreo permanece vulnerável a choques externos, custos imprevisíveis e alta alavancagem. O ciclo de recuperação financeira ainda é recente, e os resultados obtidos precisam ser vistos como etapas de uma trajetória de resiliência, ajustes e inovação permanente. Cada trimestre traz novos riscos, mas também oportunidades para quem mantiver disciplina, capacidade de adaptação e inteligência financeira.
As lições deixadas pelas empresas brasileiras destacam:
- Preparação, diversificação de receitas, disciplina financeira e capacidade de renegociação são fundamentos para sobreviver e crescer.
- Nenhuma companhia aérea, no Brasil ou no mundo, está livre de enfrentar a próxima turbulência.
- Em mercados emergentes, onde a volatilidade é regra e o contexto institucional exige criatividade, as estratégias inovadoras e o pragmatismo dos gestores fazem a diferença entre tombar e decolar.
O que os resultados revelam para o Brasil
Os balanços mostram que o setor aéreo nacional vive pleno processo de recuperação em 2025, embalado por fatores como expansão da demanda, maior conectividade, disciplina operacional e avanços nas políticas de crédito. O contexto econômico mais favorável permitiu às empresas reverter prejuízos, fortalecer estrutura de capital e investir em operações, especialmente internacionais.
Ao mesmo tempo, os resultados financeiros expõem desafios persistentes: endividamento elevado, pressão por custos financeiros, sensibilidade à variação cambial e peso tributário seguem limitando o pleno potencial do setor, ilustrando dilemas típicos do cenário econômico brasileiro.
Por enquanto, o céu segue aberto, mas o olhar precisa permanecer atento ao radar das finanças. Até que cheguem as novas tempestades do mercado.