Se a favela fosse uma empresa listada na bolsa, o mercado estaria em frenesi de compra. Estamos falando de um ativo que movimenta R$ 300 bilhões anuais. Um PIB superior ao de 22 estados brasileiros e que, ironicamente, segue invisível nos relatórios trimestrais da maioria das companhias do Ibovespa. Mas enquanto o varejo tradicional discute se vale a pena “subir o morro”, os players digitais já fizeram o bypass.
A pergunta de um milhão de dólares, ou melhor, de trezentos bilhões de reais, é: por que a Shopee se tornou o “shopping center” oficial da classe C e D, com mais de 60% da preferência, superando gigantes nacionais?. E por que o Nubank é a carteira principal da periferia, deixando os “bancões” para trás?
A resposta não é preço. É leitura de território.
A eficiência da margem
Essas empresas entenderam algo que o corporativo brasileiro tradicional ainda tropeça para enxergar: a favela é o mercado mais exigente do país. Quem vive com orçamento restrito não pode se dar ao luxo de errar na compra. A logística precisa funcionar, o UX (experiência do usuário) tem que rodar no 4G oscilante e o crédito precisa ser desburocratizado.
O Nubank não ganhou o território por caridade. Ganhou porque eliminou a porta giratória, o maior símbolo físico da exclusão bancária. A Shopee não ganhou só pelo frete grátis, mas porque gamificou o consumo e falou a língua da base da pirâmide sem o tom professoral do varejo legado.
Inovação ou morte
O erro clássico do C-Level é tratar a periferia como um “projeto social” ou um mercado secundário para desovar produtos de segunda linha. Isso é queimar dinheiro.
A “Economia das Margens” exige sofisticação. O empreendedor da favela e o consumidor periférico são early adopters por necessidade. Eles testam, validam e escalam soluções de pagamento e logística muito antes da Avenida Paulista. O PIX, por exemplo, virou moeda corrente na barraca de cachorro-quente antes de virar pauta em reunião de conselho.
O dado está na mesa: o consumo nos lares brasileiros cresceu 2,64% no início de 2025, impulsionado justamente por essa base. Ignorar esse “ticker” não é apenas preconceito, é erro estratégico grave.
O “IPO” da favela já aconteceu. A questão agora é se a sua empresa vai comprar as ações ou vai continuar apostando contra o maior mercado emergente do hemisfério sul.
Não existe ‘mercado de nicho’ quando o nicho são a maioria da população. Ou sua marca dialoga com a potência da periferia, ou ela está, tecnicamente, encolhendo.