Quando seu Juraildes começou como office boy na Orient, há 40 anos, ele não imaginava que um dia seria responsável pelo controle das assistências técnicas da marca em todo o Brasil. Mas talvez já soubesse, lá no fundo, que aquele universo de engrenagens e precisão o conquistaria para sempre. Hoje, aos 75 anos da marca, ele continua apaixonado pela profissão de relojoeiro — como parecem ser todos que cruzam os corredores da empresa.
A história de seu Juraildes, ou Jura, para os mais íntimos, é mais do que uma trajetória profissional. É um retrato do carinho que a Orient cultiva pela produção de seus relógios e pela tradição que acompanha cada modelo. Fundada no Japão em 1950 e presente no Brasil desde 1973, a marca celebra seu 75º aniversário com um reposicionamento estratégico que une inovação, sustentabilidade e respeito ao legado.
Tradição que pulsa com tecnologia
A Orient sempre foi reconhecida pela robustez e precisão de seus mecanismos — herança direta da engenharia japonesa que revolucionou a relojoaria mundial. Mas, em 2025, a marca decidiu ir além: reformulou seu portfólio, lançou novas coleções e apostou em tecnologias autossustentáveis, como a SolarTech, que alimenta as engrenagens com a energia solar.
A coleção lançada em julho já impulsionou um dos melhores meses de vendas da história da empresa, que projeta crescimento superior a 30% para o ano. “Reposicionamos a Orient como a melhor escolha para quem busca seu primeiro relógio profissional, com calibre próprio e a credibilidade de uma marca global”, afirma Rodrigo Anzanello, diretor de produtos da Orient Brasil.
A nova linha inclui os clássicos 3 Estrelas — agora em versões Heritage, que homenageiam os modelos dos anos 70 e 80 — além das coleções Elegance e Sport, voltadas para funcionalidade e aventura. Os relógios com energia solar ganham destaque em categorias como cronógrafos e modelos esportivos, reforçando o compromisso com a sustentabilidade.
Todos os modelos são equipados com pulseiras de elos sólidos e vidro de safira, garantindo durabilidade e precisão. Mas o que realmente parece diferenciar a Orient é a alma por trás da técnica — uma alma que se reflete em histórias como a de seu Jura, que conhece cada peça como quem lê um livro antigo e valioso.
A Orient não apenas importa coleções da matriz japonesa, mas também desenvolve modelos exclusivos para o mercado brasileiro, unindo a engenharia de ponta com a criatividade local. Essa autonomia tecnológica é fruto de décadas de parceria e confiança — e permite que a marca continue relevante para novas gerações, sem perder sua essência.
Ao completar 75 anos, a Orient reafirma que marcar o tempo é mais do que medir minutos: é construir memórias, preservar saberes e inspirar futuros. E pelo que nossa equipe apurou in loco nas dependências do escritório em São Paulo, se depender de seus relojoeiros — apaixonados, precisos e incansáveis — o tempo, certamente, continuará sendo contado com respeito, beleza e propósito. E, claro, sem atrasos.
Mercado relojoeiro no Brasil e no mundo
O mercado de relógios no Brasil teve um desempenho surpreendente nos primeiros meses de 2025, com um crescimento de 42% nas vendas em comparação com o mesmo período do ano anterior. Esse crescimento inesperado desafiou as previsões de queda, que eram baseadas na popularidade de smartphones e smartwatches.
O faturamento anual do setor, que já havia crescido de R$ 950 milhões para R$ 1,4 bilhão entre 2020 e 2024, continua em alta em 2025. O segmento de relógios tradicionais, em particular, tem se destacado, impulsionado por fatores como:
- O aumento da renda da população.
- A valorização de metais preciosos como ouro e prata.
- A influência de microinfluenciadores nas redes sociais, que popularizam o acessório como um item de status e expressão pessoal.
Apesar do aquecimento do mercado nacional, o mercado global de relógios de luxo apresentou uma leve desaceleração no final de 2024. No entanto, modelos de luxo continuam com alta demanda, e o mercado de relógios no Brasil está, ao que parece, novamente ganhando força como um hobby. O tempo dirá.
Para saber mais detalhes sobre as operações da empresa, a GZM conversou com exclusividade com Rodrigo Anzanello, diretor de produtos da Orient Brasil. Confira:
GZM: Quais são os principais processos industriais realizados na fábrica da Orient em Manaus e como eles se conectam com a engenharia desenvolvida no Japão?
Rodrigo: A operação da Orient em Manaus é um exemplo notável de como a tecnologia global pode ser adaptada e integrada à realidade local. Diferentemente do que muitos imaginam, a unidade de Manaus não é apenas um centro de montagem. Ela realiza uma série de processos industriais estratégicos que garantem a qualidade e a autenticidade de cada peça.
O coração da produção em Manaus reside na montagem do mostrador e ponteiros no maquinismo, no casing (montagem do maquinismo na caixa), e no fechamento final, que inclui o fundo e a revisão. A fábrica também se destaca por processos técnicos complexos, como a gravação do fundo da caixa e a preparação da tige e coroa.
Um dos pontos altos da operação é a realização de testes de impermeabilidade 100% na água, garantindo a estanqueidade de acordo com a especificação de cada produto, um rigoroso controle de qualidade que assegura a durabilidade de cada relógio.
Todos esses processos são interligados de forma meticulosa com a engenharia desenvolvida no Japão. Cada detalhe da especificação de um novo produto é avaliado com os nossos técnicos locais e para assegurar que o processo esteja alinhado com a exigência e em caso de dúvidas há trocas de informações com os fornecedores da tecnologia, mantendo o padrão de excelência da Orient.
É um fluxo contínuo de conhecimento e tecnologia, onde a engenharia japonesa define o padrão, e a execução em Manaus o concretiza em cada detalhe.
GZM: Como a fábrica em Manaus contribui para o desenvolvimento de modelos exclusivos para o mercado brasileiro? Há autonomia local na criação de novos produtos?
Rodrigo: A fábrica em Manaus dá dados objetivos sobre o desempenho funcional de todos os modelos apontando onde estão as oportunidades de ganho de performance para as novas coleções que serão criadas.
GZM: Qual é o perfil técnico das equipes que atuam na unidade de Manaus? Há programas específicos de capacitação ou intercâmbio com profissionais japoneses?
Rodrigo: O perfil técnico das equipes da unidade da Orient em Manaus é altamente especializado, com conhecimento aprofundado em maquinismos automáticos mecânicos, bem como os eletrônicos a quartzo. Essa expertise vem da história da fábrica, que desde os anos 80 monta esses mecanismos em escala industrial.
A capacitação é um processo contínuo, com forte influência japonesa. Profissionais da Orient no Japão, que estiveram na fábrica até 1984 e mantêm contato periódico, transmitiram conceitos e técnicas essenciais, como a calibração do espiral do balanço e o ângulo de escape da âncora.
Para assegurar a excelência e o alinhamento com os padrões globais, profissionais brasileiros da fábrica de Manaus também já viajaram ao Japão para receber treinamento avançado, consolidando uma troca de conhecimento recíproca.
A cultura da empresa incentiva o compartilhamento de conhecimento e o trabalho em equipe. A Orient diferencia “saber fazer” de ser um profissional “qualificado para a função”, reforçando a importância do aprimoramento constante e da precisão, que são a essência da qualidade de seus relógios.
GZM: Como a Orient promove a transferência de conhecimento entre os centros de desenvolvimento no Japão e os profissionais brasileiros? Existem iniciativas de treinamento binacional?
Rodrigo: A transferência de conhecimento na Orient é um legado contínuo, enraizado em um sistema de capacitação que remonta aos anos 80. Profissionais japoneses estiveram em Manaus para treinar as equipes locais e mantiveram visitas periódicas, garantindo que o conhecimento técnico e os padrões de qualidade fossem transmitidos de forma precisa. Essa colaboração não se resume a eventos isolados; é uma cultura de aprendizado recíproco. Esse foco no desenvolvimento humano garante que a excelência da engenharia japonesa seja concretizada com maestria em cada relógio produzido no Brasil.
Novos produtos com novas tecnologias exigem uma avaliação das especificações e o alinhamento com o processo já disponível obrigando o intercâmbio em caso de necessidade de implementação de novos processos, neste caso há visitas de profissionais para passagem do conhecimento para a fábrica local. Experiências locais também são transmitidas para melhorias quando detectadas.
GZM: Quais são os critérios utilizados para selecionar e formar os profissionais que trabalham com os mecanismos automáticos e solares, considerados estratégicos pela marca?
Rodrigo: A Orient busca mais do que mão de obra: procura guardiões de seu legado. A seleção de profissionais para os mecanismos automáticos e solares é baseada em um perfil técnico aprofundado, que exige hiperfoco, agilidade e habilidade para lidar com peças minuciosas e delicadas.
A formação, contínua e rigorosa, segue os conceitos de produção deixados pelos mestres japoneses e dedica especial atenção aos pontos sensíveis do produto durante a montagem. A cultura da Orient promove o aprimoramento contínuo, transformando os técnicos em especialistas.
A precisão e a durabilidade de cada relógio, seja mecânico ou solar, são um reflexo direto da qualidade e do rigor com que a empresa investe em suas equipes.
GZM: A fábrica em Manaus adota práticas sustentáveis na produção dos relógios movidos à energia solar? Quais são os principais indicadores ambientais monitorados pela empresa?
Rodrigo: A fábrica de Manaus tem implantado cada vez mais práticas sustentáveis em sua operação, nestes últimos 5 anos , trabalhamos com várias metas para melhorar nossas práticas. Hoje, por exemplo, 100% da energia utilizada em nosso parque fabril vem de energia eólica, o que fez com que conseguíssemos o International Renewable Energy Certificate (Certificado I-REC), um certificado internacional que garante que a energia consumida na unidade vem de energia renovável.
Em relação aos resíduos sólidos, como papel , plásticos, oriundo da importação das nossas matérias primas, são destinados para empresas de reciclagem. As baterias a serem descartadas, são destinadas a uma empresa , onde passam por um processo de tratamento que retira e faz o reaproveitamento da prata, após processo de refinamento e purificação a prata é vendida posteriormente.
A Orient em 2020 zerou o envio de resíduo para aterros, adicionalmente a isto fizemos um trabalho criando metas para migrar da incineração para recuperação energética (carbonização). Hoje, a incineração representa apenas 4 % , enquanto que a recuperação energética representa 30% da destinação do lixo não reciclável. Temos também um acordo com uma empresa que possui uma associação junto aos catadores de materiais recicláveis que cuida da nossa logística reversa.
Temos índices que acompanham mensalmente a geração dos nossos resíduos (papel , gordura, plástico, isopor, bateria, lodo de Estação de tratamento de Efluentes (ETE), entre outros), utilizamos a ferramenta Greenhouse Gas Protocol (GHG Protocol) para acompanhamento da nossa geração de carbono, temos índice de acompanhamento do consumo de água, além de fazermos auditorias anuais nos prestadores contratados responsáveis pela destinação tanto do reciclável como do não reciclável.
GZM:Há iniciativas locais voltadas à redução de resíduos, reaproveitamento de materiais ou uso de fontes renováveis na operação fabril?
Rodrigo: Sim, constantemente temos diálogos rápidos semanais de 10 minutos para conscientização de nossos colaboradores, que tratam de assuntos diversos, entre eles conscientização ambientais e falam principalmente sobre o seu papel de cada um junto à sociedade.
Temos um jornal mensal que fica em quadros espalhados por todo o parque fabril, onde levamos práticas sustentáveis que podem ser utilizadas dentro e fora da empresa , falamos também neste jornal sobre os impactos ambientais, dando sugestões de como minimizá-lo e o que podemos fazer como comunidade em prol do nosso ambiente. Fazemos algumas campanhas, incluindo palestras , campeonatos voltados para o cuidado com o meio ambiente, dinâmicas.
GZM: Como a Orient se posiciona em relação às exigências ambientais da Zona Franca de Manaus e quais certificações a unidade possui?
Rodrigo: A Orient por estar localizada na Amazônia tem uma imensa responsabilidade em relação ao meio ambiente, sendo assim cumprir as exigências ambientais é um ponto prioritário em nossa diretriz. As licenças ambientais obrigatórias são tratadas com muita seriedade por todos.
Em função disso possuímos todas as licenças exigidas pela SUFRAMA (Superintendência da Zona Franca de Manaus), IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), IPAAM (Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas), SEMMAS (Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade), SEDECTI/AM( Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação ). Somos também membros ativos das Comissões Ambientais e de ESG das indústrias da ZFM.
GZM: De que forma os talentos brasileiros influenciam o design e a funcionalidade dos relógios voltados ao público nacional? Há espaço para inovação local dentro dos padrões japoneses?
Rodrigo: Toda a direção de design para os modelos locais acontece no Brasil. Portando o time do brasil influencia o design e as soluções técnicas e inovações que posteriormente podem ser adotadas mundialmente.
GZM: Como a Orient equilibra sua tradição japonesa com a criatividade e as demandas do consumidor brasileiro na concepção dos produtos?
Rodrigo: Entendemos a tradição japonesa como valores inegociáveis. A qualidade, precisão e confiabilidade são nossos pilares, porém aspectos estéticos e funcionais evoluem com a sociedade e temos autonomia e expertise para implementar nossa visão que busca atender as demandas do nosso consumidor que se alteram ao longo do tempo.
Fazemos monitoramento constante do mercado para atender novas demandas de nossos consumidores e temos como meta sempre superar as expectativas de quem confia em nossa marca.