O início do ano costuma ser um período de planejamento. Pessoas reorganizam agendas, estabelecem metas profissionais e avaliam quais conhecimentos e habilidades precisam desenvolver ao longo dos meses seguintes. Nesse contexto, uma dúvida aparece com frequência crescente: optar por um curso presencial ou por um curso à distância? Essa é uma pergunta que recebo repetidamente, tanto de jovens em formação quanto de profissionais interessados em atualização.
Essa dúvida ganhou ainda mais relevância após a pandemia, quando praticamente todo o sistema educacional foi forçado a migrar para o formato remoto. Vivi esse processo de forma intensa. De maneira abrupta, todas as minhas disciplinas passaram a ser oferecidas à distância. No início imaginei que o desempenho geral cairia, mas o resultado foi mais complexo e, em alguns casos, surpreendente.
Algumas turmas apresentaram desempenho superior ao obtido no ensino presencial. Esse efeito foi particularmente evidente nas disciplinas de projeto, estruturadas em reuniões frequentes de acompanhamento, discussões de alternativas e avaliações periódicas de progresso. A interação contínua, mesmo mediada por tela, trouxe mais disciplina, maior previsibilidade de entregas e mais clareza sobre expectativas e responsabilidades.
Ao mesmo tempo, disciplinas teóricas de exatas apresentaram resultados piores do que aqueles observados no presencial. A atenção se dispersava com mais facilidade, o raciocínio ficava fragmentado e o domínio dos conceitos fundamentais exigia esforço adicional. Essa assimetria sugere que o impacto da modalidade está fortemente associado ao tipo de atividade envolvida. Projetos dependem de orientação contínua e de trocas frequentes, algo que se adapta bem ao ambiente remoto. Conteúdos que exigem concentração individual prolongada e abstração profunda tendem a se beneficiar do ambiente presencial.
Outra hipótese envolve o tipo de esforço cognitivo demandado. Trabalhos em projeto mobilizam habilidades colaborativas, organizacionais e comunicacionais, que se mantêm ou até se fortalecem no ambiente virtual. Já disciplinas de base exigem raciocínio contínuo e concentração sustentada, mais vulneráveis às interrupções típicas do ensino remoto.
A partir dessa experiência, vale esclarecer o que é o ensino à distância, abreviado como EAD, e como ele se diferencia de outras modalidades. O EAD é caracterizado pela separação física entre professor e aluno, com mediação por plataformas digitais. No formato síncrono, todos participam em tempo real, reproduzindo parte da dinâmica da sala de aula. No formato assíncrono, o aluno estuda no próprio ritmo, com acesso contínuo a vídeos, textos, exercícios e avaliações.
O ensino presencial mantém a convivência física, a interação espontânea e o uso direto de laboratórios e infraestrutura. Já o modelo híbrido combina momentos presenciais e remotos, buscando explorar o que cada formato oferece de melhor.
Cada modalidade apresenta vantagens claras. O EAD síncrono reduz deslocamentos, facilita a participação de convidados externos, permite gravação das aulas e amplia o conforto para alunos que se expressam melhor em ambiente virtual. Em contrapartida, exige atenção prolongada, pode gerar fadiga cognitiva e dificulta a construção de vínculos mais profundos.
O EAD assíncrono amplia ainda mais a flexibilidade e permite que o aluno organize seus horários de estudo. É especialmente eficaz quando o estudante já possui bons hábitos e autonomia. Sua principal limitação está na exigência de autodisciplina e na redução da interação direta com professores e colegas.
O ensino presencial segue como referência para conteúdos que demandam concentração contínua, acompanhamento próximo e uso intensivo de recursos físicos. Seu custo em tempo e deslocamento, no entanto, pesa para muitos profissionais. O modelo híbrido busca equilibrar esses fatores ao combinar encontros presenciais estratégicos com atividades remotas mais eficientes do ponto de vista logístico.
Do ponto de vista do estudante, a escolha da modalidade deve começar pela clareza sobre o objetivo do curso e sobre o tipo de conteúdo. Disciplinas introdutórias de exatas, que exigem raciocínio progressivo, tendem a funcionar melhor no presencial ou em formatos híbridos. Cursos baseados em projeto, gestão, design e tomada de decisão se beneficiam do EAD síncrono, que permite encontros frequentes e direcionados.
Cursos de atualização profissional funcionam bem no formato assíncrono quando o aluno já domina os fundamentos da área. Profissionais com agenda intensa costumam aproveitar melhor modelos híbridos. Já estudantes em transição de carreira frequentemente necessitam do suporte presencial para consolidar novas bases conceituais.
A forma pessoal de aprender também deve ser considerada. Pessoas que precisam de rotina fixa, interação direta e apoio imediato tendem a progredir melhor no presencial. Quem valoriza autonomia e consegue manter constância independente do ambiente costuma aproveitar melhor o EAD. Quando o objetivo inclui construção de rede de contatos, a presença física pode fazer diferença. Quando o foco é aprofundamento técnico, o assíncrono pode ser suficiente.
Para as instituições de ensino, a decisão envolve outra camada de complexidade. É preciso alinhar modalidade, tipo de competência a ser desenvolvida e expectativas do mercado. Cursos de engenharia, saúde e ciências que dependem de laboratórios exigem forte presença física, mas podem incorporar atividades remotas para seminários e supervisões. Cursos de gestão, negócios e tecnologia da informação podem migrar parte significativa do conteúdo para o ambiente remoto.
Na educação continuada voltada a profissionais experientes, o EAD síncrono tende a ser eficiente. O formato assíncrono exige materiais muito bem estruturados e sistemas de acompanhamento rigorosos. O ensino presencial demanda infraestrutura atualizada e atenção à experiência de convivência. Em muitos casos, o híbrido oferece o melhor equilíbrio entre profundidade pedagógica e eficiência operacional.
No fim, não existe modalidade superior em termos absolutos. Existe a modalidade mais adequada ao conteúdo, ao perfil do aluno e ao objetivo formativo. O ensino à distância amplia acesso e flexibilidade. O presencial fortalece foco e imersão. O híbrido integra essas virtudes. Em um período em que tantos planejam o próximo passo de sua formação, escolher bem a modalidade é parte essencial do próprio processo de aprendizado.
Marcelo Massarani é Professor Doutor da Escola Politécnica da USP, Diretor Acadêmico da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, membro do Conselho Diretor do Instituto da Qualidade Automotiva e Conselheiro consultivo