Quando 2,2 milhões de pessoas acordam sem energia em São Paulo porque um vendaval derrubou árvores sobre fiações, e o comércio perde R$ 1,54 bilhão em faturamento em dois dias, a discussão sobre “custos de planejamento” vira piada amarga. O Brasil acaba de aprender – pela enésima vez – que improvisar é caro. Muito caro. A questão deixa de ser “por que gastar com planos de resiliência urbana?” e passa a ser “como o Brasil não pode mais não gastar?”.
Nova York aprovou, em 2025, seu plano estadual de energia para a próxima década e meia. Não é um documento bonito para arquivos; é um roteiro vivo, criado com participação de múltiplos atores – poder público, concessionárias, universidades, think tanks, sociedade civil – que mapeia cenários de futuro, estima investimentos necessários, define metas de confiabilidade e estabelece trade-offs entre descarbonização, acessibilidade e segurança.
O plano examina explicitamente como uma demanda de energia 25% maior em 2040 será suprida com segurança, quais sistemas de armazenamento serão necessários, como integrar energia renovável em larga escala mantendo a estabilidade da rede, e como diferentes grupos de renda serão impactados pelos custos de transição.
Não há surpresas: o planejamento sistemático permite saber aonde ir, quanto custa e o que priorizar. O custo de executar esse plano é medido em bilhões; o custo de não executá-lo – em apagões recorrentes, perdas econômicas, risco para hospitais e infraestruturas críticas – é incalculável.
São Paulo não tem um plano assim. Nenhuma grande cidade brasileira tem. O que há é uma sucessão de crises, onde concessionárias reagem depois de apagões, governos abrem CPI, e depois tudo volta ao silêncio até a próxima tempestade. É um ciclo que confunde cautela com covardia. Não se planejar não é “economizar”; é escolher pagar muito caro e de surpresa, no pior cenário possível.
Criar um plano de resiliência urbana para as cidades brasileiras exigiria, primeiro, a constituição de grupos de trabalho técnicos e intersetoriais. Não está sendo feito no nível que deveria. Esses grupos precisariam incluir: representantes de poder público (prefeituras, estado, órgãos de regulação ambiental), concessionárias de energia e água, bancos e instituições financeiras, setor privado (comercial, industrial, saúde), universidades com expertise em engenharia e economia, sociedade civil e sindicatos. Cada um traz sua perspectiva; juntos, o grupo constrói um diagnóstico honesto.
O segundo passo seria mapear riscos: não apenas “ventos fortes”, mas cenários específicos para cada cidade – enchentes em São Paulo, seca em Brasília, chuvas torrenciais no Rio, aumento de temperatura em Manaus. Para cada risco, calcular o impacto econômico se não houver mitigação: quanto perde o comércio? Quanto custa ficar sem água? Quanto é o risco para hospitais? Quanto é o risco para a cadeia de suprimentos local? Esse exercício, feito com rigor, mostra que o “custo de planejar” é sempre menor que o “custo de não planejar”.
O terceiro passo seria desenhar as intervenções: onde diversificar energia, onde reforçar linhas, onde criar microgrids, onde investir em eficiência, em armazenamento, em resiliência. Para cada intervenção, estimar custo, prazo, responsabilidade, métricas de sucesso. Estabelecer metas anuais e mecanismos de accountability. Isso é chato, burocrático, demanda disciplina. Mas é o que Nova York faz, é o que Singapura faz, é o que Melbourne faz.
O quarto passo seria financiar. Fundos públicos, concessões com obrigações de investimento em resiliência, financiamento privado (que flui para ativos resilientes), parcerias público-privadas, crédito de instituições multilaterais. O dinheiro existe; o que falta é vontade política de alocá-lo não em obras visíveis (uma avenida, um estádio), mas em infraestrutura invisível – fios reforçados, sistemas de bateria, redundância, monitoramento.
Há uma objeção clássica: “planejar custa, e nós não temos dinheiro”. Ela é falsa. O Brasil gasta bilhões em emergências, perdas produtivas, custos sociais de desorganização. A questão não é “temos dinheiro para planejar?”, é “temos dinheiro para continuar não planejando?”. Os números do apagão de São Paulo respondem: não temos.
Outra objeção: “isso demora, e precisamos de soluções já”. Também falsa. Planejamento bem feito permite começar logo e acelerar. Uma cidade que tem diagnóstico, metas e governança consegue executar 10 vezes mais rápido que uma cidade que vai achando o caminho. Nova York começou há anos; colhe dividendos agora. São Paulo pode começar já e colher dividendos em 2026, 2027. Mas tem que começar.
Por fim, há a objeção mais insidiosa: “planejar é responsabilidade de quem? Prefeitura? Concessionária? Setor privado?”. Resposta: de todos, coordenados. É aí que grupos de trabalho intersetoriais são imprescindíveis. Ninguém faz sozinho. Mas juntos, com metas claras, responsabilidades definidas e prestação de contas honesta, faz.
O preço de planejar é real: exige dinheiro, tempo de especialistas, governança rigorosa, e a coragem de dizer “não” a outras coisas para focar naquilo que realmente importa. É desconfortável. Mas é um preço que se paga uma vez, conscientemente, e depois se colhe o dividendo de uma cidade que não sofre apagão porque choveu.
O preço de não planejar também é real: é pago toda vez que soca o ar-condicionado num dia quente, toda vez que uma árvore cai e deixa milhões sem luz, toda vez que um hospital vê seus geradores queimarem, toda vez que uma empresa fecha as portas porque não tem eletricidade. É pago de surpresa, sem aviso, sem controle. E é sempre muito mais caro.
Se há uma lição que o apagão de São Paulo deixou para as cidades brasileiras, é essa: planejar tem preço. Mas não planejar é mais caro. A escolha não é entre “investir” ou “não investir”. É entre investir agora, com lógica e método, ou pagar depois, de forma caótica e desordenada. Nova York escolheu a primeira. É hora de São Paulo, Rio, Brasília e outras metrópoles brasileiras fazerem o mesmo.