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Planejar tem preço. Não planejar também

Singapura vista da rua, case internacional de cidade resiliente e segura
Editorial da Gazeta Mercantil de 12 de dezembro de 2025 sobre os impactos do clima nas poucas resilientes cidades brasileiras

Quando 2,2 milhões de pessoas acordam sem energia em São Paulo porque um vendaval derrubou árvores sobre fiações, e o comércio perde R$ 1,54 bilhão em faturamento em dois dias, a discussão sobre “custos de planejamento” vira piada amarga. O Brasil acaba de aprender – pela enésima vez – que improvisar é caro. Muito caro. A questão deixa de ser “por que gastar com planos de resiliência urbana?” e passa a ser “como o Brasil não pode mais não gastar?”.

Nova York aprovou, em 2025, seu plano estadual de energia para a próxima década e meia. Não é um documento bonito para arquivos; é um roteiro vivo, criado com participação de múltiplos atores – poder público, concessionárias, universidades, think tanks, sociedade civil – que mapeia cenários de futuro, estima investimentos necessários, define metas de confiabilidade e estabelece trade-offs entre descarbonização, acessibilidade e segurança. 

O plano examina explicitamente como uma demanda de energia 25% maior em 2040 será suprida com segurança, quais sistemas de armazenamento serão necessários, como integrar energia renovável em larga escala mantendo a estabilidade da rede, e como diferentes grupos de renda serão impactados pelos custos de transição. 

Não há surpresas: o planejamento sistemático permite saber aonde ir, quanto custa e o que priorizar. O custo de executar esse plano é medido em bilhões; o custo de não executá-lo – em apagões recorrentes, perdas econômicas, risco para hospitais e infraestruturas críticas – é incalculável.

São Paulo não tem um plano assim. Nenhuma grande cidade brasileira tem. O que há é uma sucessão de crises, onde concessionárias reagem depois de apagões, governos abrem CPI, e depois tudo volta ao silêncio até a próxima tempestade. É um ciclo que confunde cautela com covardia. Não se planejar não é “economizar”; é escolher pagar muito caro e de surpresa, no pior cenário possível.

Criar um plano de resiliência urbana para as cidades brasileiras exigiria, primeiro, a constituição de grupos de trabalho técnicos e intersetoriais. Não está sendo feito no nível que deveria. Esses grupos precisariam incluir: representantes de poder público (prefeituras, estado, órgãos de regulação ambiental), concessionárias de energia e água, bancos e instituições financeiras, setor privado (comercial, industrial, saúde), universidades com expertise em engenharia e economia, sociedade civil e sindicatos. Cada um traz sua perspectiva; juntos, o grupo constrói um diagnóstico honesto.

O segundo passo seria mapear riscos: não apenas “ventos fortes”, mas cenários específicos para cada cidade – enchentes em São Paulo, seca em Brasília, chuvas torrenciais no Rio, aumento de temperatura em Manaus. Para cada risco, calcular o impacto econômico se não houver mitigação: quanto perde o comércio? Quanto custa ficar sem água? Quanto é o risco para hospitais? Quanto é o risco para a cadeia de suprimentos local? Esse exercício, feito com rigor, mostra que o “custo de planejar” é sempre menor que o “custo de não planejar”.

O terceiro passo seria desenhar as intervenções: onde diversificar energia, onde reforçar linhas, onde criar microgrids, onde investir em eficiência, em armazenamento, em resiliência. Para cada intervenção, estimar custo, prazo, responsabilidade, métricas de sucesso. Estabelecer metas anuais e mecanismos de accountability. Isso é chato, burocrático, demanda disciplina. Mas é o que Nova York faz, é o que Singapura faz, é o que Melbourne faz.

O quarto passo seria financiar. Fundos públicos, concessões com obrigações de investimento em resiliência, financiamento privado (que flui para ativos resilientes), parcerias público-privadas, crédito de instituições multilaterais. O dinheiro existe; o que falta é vontade política de alocá-lo não em obras visíveis (uma avenida, um estádio), mas em infraestrutura invisível – fios reforçados, sistemas de bateria, redundância, monitoramento.

Há uma objeção clássica: “planejar custa, e nós não temos dinheiro”. Ela é falsa. O Brasil gasta bilhões em emergências, perdas produtivas, custos sociais de desorganização. A questão não é “temos dinheiro para planejar?”, é “temos dinheiro para continuar não planejando?”. Os números do apagão de São Paulo respondem: não temos.

Outra objeção: “isso demora, e precisamos de soluções já”. Também falsa. Planejamento bem feito permite começar logo e acelerar. Uma cidade que tem diagnóstico, metas e governança consegue executar 10 vezes mais rápido que uma cidade que vai achando o caminho. Nova York começou há anos; colhe dividendos agora. São Paulo pode começar já e colher dividendos em 2026, 2027. Mas tem que começar.

Por fim, há a objeção mais insidiosa: “planejar é responsabilidade de quem? Prefeitura? Concessionária? Setor privado?”. Resposta: de todos, coordenados. É aí que grupos de trabalho intersetoriais são imprescindíveis. Ninguém faz sozinho. Mas juntos, com metas claras, responsabilidades definidas e prestação de contas honesta, faz.

O preço de planejar é real: exige dinheiro, tempo de especialistas, governança rigorosa, e a coragem de dizer “não” a outras coisas para focar naquilo que realmente importa. É desconfortável. Mas é um preço que se paga uma vez, conscientemente, e depois se colhe o dividendo de uma cidade que não sofre apagão porque choveu.

O preço de não planejar também é real: é pago toda vez que soca o ar-condicionado num dia quente, toda vez que uma árvore cai e deixa milhões sem luz, toda vez que um hospital vê seus geradores queimarem, toda vez que uma empresa fecha as portas porque não tem eletricidade. É pago de surpresa, sem aviso, sem controle. E é sempre muito mais caro.

Se há uma lição que o apagão de São Paulo deixou para as cidades brasileiras, é essa: planejar tem preço. Mas não planejar é mais caro. A escolha não é entre “investir” ou “não investir”. É entre investir agora, com lógica e método, ou pagar depois, de forma caótica e desordenada. Nova York escolheu a primeira. É hora de São Paulo, Rio, Brasília e outras metrópoles brasileiras fazerem o mesmo.

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