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Por que a periferia precisa de recursos, não apenas reconhecimento

Por Joildo Santos, fundador do Grupo CRIA e especialista em comunicação estratégica e desenvolvimento de ecossistemas. Trabalha há 18 anos conectando marcas, agências e governos com comunidades, facilitando parcerias que geram impacto real e resultado mensurável

Semana passada, vi uma empreendedora de Paraisópolis resolver um problema de logística que quebraria qualquer startup do Itaim. Sem dinheiro para transporte, ela negociou com três motoboys para dividir entregas em rotas otimizadas, criou um sistema de pagamento compartilhado com outras vendedoras e ainda montou um esquema de devolução aproveitando o trajeto de volta. Tudo isso em duas horas, usando WhatsApp, confiança e muita intuição estratégica.

Essa mesma lógica é ensinada como “design thinking colaborativo” em escolas de negócios pelo mundo. A diferença? Ela aprendeu por necessidade, não por escolha. E isso não deveria ser romantizado como vantagem competitiva.

Aqui está o que o mercado corporativo precisa encarar com honestidade: criatividade, improviso e resiliência são o piso das periferias, não o teto. São ferramentas de sobrevivência, não superpoderes a serem celebrados enquanto faltam condições reais para escalar negócios e transformar potenciais individuais em impacto coletivo. Quando tratamos essas habilidades como troféus culturais, mas não entregamos infraestrutura, crédito, rede e conhecimento estruturado, estamos apenas aplaudindo de pé enquanto alguém continua carregando um peso que nunca deveria carregar sozinho.

A gambiarra virou metodologia, mas só para quem pode pagar

Tem um contraste que revela muito sobre o Brasil. Enquanto executivos pagam caro para aprender “pensamento criativo com recursos limitados” em MBAs de inovação, quem vive isso diariamente continua sem acesso a capital, networking ou formação técnica continuada. As práticas que nasceram da escassez, improviso inteligente, colaboração orgânica, gestão de risco cotidiana, viraram conteúdo de curso, capítulo de livro e estudo de caso internacional.

Mas o que ainda é raro é ver investimento consistente em quem criou essas soluções na marra.

Nos últimos 27 anos morando em Paraisópolis, vi centenas de microempreendedores desenvolverem soluções que qualquer aceleradora aplaudiria. Vi salão de beleza virar ponto de distribuição de produtos. Vi sacolão (hortifruti) se transformar em hub de delivery. Vi costureira criar modelo de produção sob demanda antes de isso virar tendência em moda sustentável. Quando acontece num bairro nobre, chama rodada de investimento; quando acontece na periferia, chamam de necessidade.

Os números reforçam esse abismo. Uma fatia relevante dos pequenos negócios fecha as portas em até cinco anos, com falta de capital como principal causa. Não é ausência de ideia nem de execução, é falta de ponte, de rede, de crédito acessível e de tempo para empreender quando se trabalha 10 ou 12 horas por dia.

Startups em ecossistemas privilegiados captam milhões sem ter produto validado. Microempreendedores periféricos enfrentam juros altos, burocracia e exigências de garantia que não dialogam com sua realidade.

Então, quando alguém vier falar de “disrupção”, a pergunta é: disrupção para quem?

O mito da meritocracia sem endereço

Meritocracia é bonita no discurso, mas frágil na prática quando o ponto de partida é tão desigual.

Conheço dois empreendedores. Ambos com 30 anos. Ambos sonhando com negócios de tecnologia. Ambos inteligentes e trabalhadores. A diferença? O primeiro mora num bairro nobre desde que nasceu, estudou em escola particular, fez intercâmbio, tem rede de contatos que abre portas naturalmente. Quando decidiu empreender, recebeu R$ 300 mil de um parente. O segundo mora em Paraisópolis, estudou em escola pública, trabalha como entregador 10 horas por dia, e começou seu negócio com R$ 3 mil economizados pela mãe ao longo de dois anos.

Comparar o resultado desses dois trajetos e atribuir tudo ao “mérito individual” é ignorar capital social, acesso a informação, rede de proteção e tempo livre, elementos que influenciam profundamente o destino de qualquer empreendimento.

Em décadas de atuação em Paraisópolis e outras comunidades, a cena é sempre a mesma: gente extremamente talentosa, criativa e disciplinada. O que falta não é mérito, é ponte. Essa ponte se chama crédito acessível, redes qualificadas, conhecimento estruturado e tempo para trabalhar sem sacrificar o sustento da família.

Meritocracia só funciona quando o jogo começa minimamente justo. Fora disso, vira desculpa confortável para manter desigualdades que não se explicam por esforço individual.

O potencial econômico que está deixando dinheiro na mesa

Agora, falando a língua do C-level: retorno sobre investimento.

As periferias brasileiras movimentam centenas de bilhões, em alguns cálculos, meio trilhão de reais por ano. Não são nicho. Não são exceção. São parte central do consumo, da cultura e da inovação brasileira. Mesmo assim, boa parte das empresas ainda enxerga esse público apenas em datas sazonais ou em ações pontuais de responsabilidade social.

No Grupo Cria Brasil, são dezoito anos conectando marcas com territórios periféricos. Empresas que investiram de forma contínua nesses contextos tiveram resultados superiores em engajamento e conversão, não por caridade, mas por estratégia.

Quem vive na periferia resolve problema real. E quem resolve problema real cria soluções que vendem, que escalam e que se conectam com as necessidades concretas da maioria da população.

Quando uma empresa ignora essa potência, ela não só perde mercado. Ela perde a chance de inovar baseado na realidade, não apenas na teoria.

O que o C-level precisa entender (5 verdades diretas)

  1. Talento não falta. Falta ponte.
  2. Diversidade sem investimento é performatividade.
  3. Inovação de verdade nasce onde o problema é real.
  4. O risco de não investir é maior do que o de apostar em quem já provou sua resiliência.
  5. Responsabilidade social virou responsabilidade de negócio.

O que fazer agora, porque diagnóstico sem ação é conversa de bar

Três caminhos que qualquer empresa pode iniciar imediatamente:

  1. Programas de aceleração com investimento real, não só mentorias.
  2. Revisar políticas de crédito e fornecimento para incluir microempreendedores periféricos.
  3. Contratar empresas periféricas em áreas estratégicas, não só serviços de baixo valor.

A resiliência das periferias não precisa de palmas. Precisa de palco, microfone e investimento. As periferias não pedem favor, oferecem parceria. A pergunta é simples: quem está disposto a ajustar seu modelo de negócio para caber na realidade do Brasil, em vez de tentar encaixar o Brasil real em modelos antigos?

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