Os números mais recentes da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram que boa parte das dificuldades do Brasil para competir lá fora não nasce “no mundo”, mas dentro de casa. A pesquisa Desafios à Competitividade das Exportações Brasileiras, feita com empresas exportadoras, revela que quatro dos cinco maiores entraves são de logística e infraestrutura – um retrato de como gargalos antigos seguem minando o desempenho de setores modernos.
O custo do transporte internacional aparece no topo da lista, citado por 58,2% das empresas como obstáculo de impacto elevado ou crítico, seguido por ineficiência de portos, limitações de rotas, espaço e contêineres, além de tarifas portuárias altas; apenas na quinta posição surge o primeiro fator não logístico: a volatilidade cambial. Em vez de discutir apenas câmbio ou demanda externa, a pesquisa recoloca luz sobre um tema estrutural: sem atacar o “custo Brasil” em logística, o país continuará exportando menos – e com margens menores – do que sua capacidade produtiva permitiria.
Logística: o nó que ficou mais apertado
O dado mais eloquente da comparação com 2022 é a escalada da questão portuária. O custo do transporte internacional já era o principal entrave na pesquisa anterior, citado por 60,7% das empresas; em 2025, segue no topo, com 58,2%, o que indica uma leve melhora, mas ainda em patamar crítico. Já a ineficiência dos portos, que em 2022 ocupava a 14ª posição e preocupava 26% das exportadoras, saltou para o segundo lugar em 2025, sendo apontada por 48,5% das empresas.
Na prática, isso significa operações mais lentas, maior risco de atrasos, filas e custos adicionais com armazenagem, demurrage e readequação de fretes. Limitações de rotas marítimas, espaço ou contêineres também foram citadas por 47,7%, e tarifas portuárias elevadas, por 46,2% – um conjunto de fatores que, somado, reduz a competitividade de produtos brasileiros em mercados onde concorrentes enfrentam custos logísticos menores e mais previsíveis.
A leitura que a CNI faz é direta: entraves internos de natureza estrutural estão corroendo a competitividade da indústria brasileira justamente em um momento em que o cenário externo se torna mais desafiador, com tensões geopolíticas, guerra de subsídios e novas barreiras regulatórias. Para o presidente da entidade, Ricardo Alban, o país vive uma encruzilhada: ou acelera a correção de gargalos logísticos e institucionais, ou corre o risco de perder espaço em mercados “exigentes e dinâmicos”.
A pesquisa mostra que, embora tenha havido alguma melhora no custo do transporte doméstico desde 2022, exportadores percebem agravamento de entraves institucionais, como ineficiência portuária e impacto de juros elevados, reforçando a necessidade de políticas coordenadas entre governo e setor privado para dar previsibilidade a investimentos em infraestrutura e reduzir custos na ponta.
Burocracia, normas e o labirinto institucional
Para além da logística, o estudo destaca um conjunto de entraves institucionais que ajudam a explicar por que, apesar da dimensão econômica, o Brasil ainda responde por menos de 2% do comércio mundial. Burocracia alfandegária e aduaneira, infraestrutura inadequada e a complexidade do arcabouço normativo de comércio exterior aparecem como fatores que encarecem e atrasam operações, especialmente para empresas de menor porte.
Entraves tributários também pesam: 32,1% das empresas apontaram a alta tributação na importação de serviços utilizados para exportação como crítica, enquanto a complexidade de regimes especiais e as dificuldades para ressarcimento de créditos tributários completam o quadro.
Instrumentos como o Drawback são citados como importantes, mas subutilizados por parte das empresas por falta de informação, exigências complexas e custos de conformidade. Do ponto de vista regulatório mais amplo, 29,1% das empresas consideram a insegurança jurídica um entrave crítico, e 25% apontam a existência de leis conflituosas ou pouco efetivas. Isso se traduz, na prática, em maior risco percebido, decisões postergadas e, em alguns casos, desistência de operações mais complexas.
A burocracia específica de comércio exterior também aparece com força: excesso e complexidade de documentos são citados por 27,3% das empresas, a ausência de uma “janela única” de inspeções por 26% e a falta de sincronismo entre órgãos públicos por 25%. Apesar de avanços como o Portal Único de Comércio Exterior, a percepção é de que o ritmo de simplificação ainda é insuficiente frente ao que outros países vêm implementando.
A porta estreita do acesso a mercados
A pesquisa também deixa claro que não basta “querer vender lá fora”: as portas de entrada em mercados estratégicos ainda são estreitas para a indústria brasileira. A ausência de acordos comerciais com países de destino aparece como o principal entrave de acesso a mercados para 25,8% das empresas. Em seguida vêm barreiras tarifárias (22,7%), não tarifárias (21,7%), a abrangência insuficiente de acordos existentes (20,9%) e regulamentações de sustentabilidade consideradas restritivas ou discriminatórias (9,7%).
Cerca de 31% das empresas disseram ter enfrentado barreiras nos mercados de destino, sendo que, entre essas, 67,2% apontam tarifas de importação como o principal obstáculo. Burocracia aduaneira no país de destino (37,8%), normas técnicas (37%), medidas de defesa comercial (28,6%) e medidas sanitárias e fitossanitárias (25,2%) completam o cenário.
O dado é particularmente relevante em um contexto em que cadeias globais de valor se reorganizam e novas exigências ambientais, sociais e de governança ganham peso. Quando perguntadas sobre com quais países o Brasil deveria priorizar acordos, as empresas foram claras: Estados Unidos (69%) e China (34%) aparecem à frente, sinalizando a percepção de oportunidades – e a urgência de uma agenda ativa de política comercial.
O que fazer? Agenda de competitividade na mesa
A pesquisa da CNI não se limita ao diagnóstico; ela embasa um conjunto de propostas para melhorar a competitividade das exportações. No eixo de financiamento, a entidade defende a modernização e diversificação dos instrumentos de apoio, com previsibilidade orçamentária e alinhamento a práticas internacionais, além da reestruturação do lastro do Seguro de Crédito à Exportação para garantir uma fonte estável. Em tributação, a agenda passa por simplificar e digitalizar regimes especiais como Drawback e Recof, reduzir custos de conformidade e ampliar a rede de acordos para evitar a dupla tributação com parceiros estratégicos, como EUA, Alemanha e Reino Unido.
Na logística, a CNI propõe medidas concretas como implantar a Janela Única Aquaviária e sistemas comunitários portuários (Port Community Systems), reduzir tarifas portuárias e aeroportuárias e revisar regulações para estimular concorrência na oferta de serviços. Em facilitação de comércio, as prioridades incluem concluir a implementação do Portal Único, fortalecer o programa de Operador Econômico Autorizado (OEA) e criar um Comitê Nacional de Barreiras Comerciais com participação ativa do setor privado.
Na integração internacional, a entidade aponta como urgente a internalização dos acordos Mercosul–União Europeia e Mercosul–EFTA, além da retomada de negociações com EUA e Canadá e da ampliação de acordos regionais com foco também em serviços e investimentos. Por fim, em governança, propõe a criação de um Observatório da Competitividade das Exportações, vinculado à Camex, e o estabelecimento de metas anuais de melhoria em indicadores de competitividade.
Vista em conjunto, a pesquisa Desafios à Competitividade das Exportações Brasileiras funciona menos como um retrato pontual e mais como uma tomografia de longo prazo dos gargalos que se repetem – e se transformam – na relação do Brasil com o comércio internacional. A mensagem central, para empresas e formuladores de política, é que o problema não está apenas “lá fora”, em tarifas e barreiras alheias à nossa vontade.
As rachaduras mais profundas ainda estão em casa: na logística cara e ineficiente, na burocracia pesada, na insegurança regulatória e na ausência de uma estratégia consistente de acordos e facilitação de comércio. Enfrentá‑las não garante sucesso automático nas exportações, mas ignorá‑las é, cada vez mais, um convite para perder espaço em mercados que não esperam – nem têm paciência – por quem demora a se ajustar.
