A explosão do trabalho via aplicativos virou símbolo de um país que encontrou, nas plataformas digitais, uma válvula de escape para o desemprego crônico. Por trás do discurso sedutor do “seja seu próprio chefe”, estão sobretudo homens negros, jovens, de periferia, que enxergam nos apps menos um sonho de empreendedorismo e mais a única porta de entrada para alguma renda. Pesquisas mostram que o número de trabalhadores de plataformas cresceu acima de 25% em dois anos, enquanto o mercado formal segue patinando.
Essa escolha, portanto, nem sempre é escolha. A matéria principal da GZM de hoje, 3 de dezembro, expõem a dureza da equação: em contextos semelhantes ao brasileiro, um entregador precisa realizar mais de 15 pedidos por dia, todos os dias do mês, apenas para ultrapassar a linha da pobreza. No Brasil, levantamentos apontam ganhos líquidos típicos entre R$ 2 mil e R$ 3 mil para jornadas de 40 horas semanais, já descontados custos de combustível, manutenção e tempo ocioso – valores que mal cobrem cesta básica, aluguel e transporte em grandes centros.
Ao mesmo tempo, essa migração em massa para o trabalho por app corrói silenciosamente as bases fiscais e previdenciárias. Classificados como contribuintes individuais, motoristas e entregadores quase não contribuem para o INSS, seja por desconhecimento, seja por falta de renda disponível. Especialistas alertam que essa “zona cinzenta” cria um duplo buraco: reduz a arrecadação hoje e projeta uma geração de idosos sem proteção amanhã, pressionando ainda mais um sistema previdenciário que já sente o envelhecimento da população.
O mesmo vale para a tributação. Discussões ligadas à reforma tributária reconhecem que não faz sentido tratar o faturamento bruto desses trabalhadores como renda disponível, dado o peso dos custos operacionais. Buscar justiça fiscal sem empurrar ainda mais gente para a informalidade exige calibrar bases de cálculo, envolver plataformas no recolhimento e considerar que há, sim, geração de valor relevante – mas distribuída de forma desigual entre acionistas, empresas, consumidores e quem está na ponta da entrega.
Nada disso significa demonizar os aplicativos. Muitos trabalhadores relatam ganhos superiores às alternativas que tinham, valorizam a flexibilidade e usam a atividade como renda de transição ou complemento. O ponto é outro: quando empresas concentram dados, algoritmos e acesso a clientes, mas transferem quase todo o risco econômico e social para indivíduos atomizados, o rótulo de “empreendedorismo” se torna, no mínimo, insuficiente. A economia de plataformas não é, por definição, precarizante – mas, sem regulação adequada, tende a se apoiar justamente na precariedade como modelo de negócio.
O desafio para o Brasil é tratar o tema com a dupla sensibilidade que ele exige: respeitar a agência cultural de quem escolhe o app como estratégia de sobrevivência, sem romantizar a falta de alternativa; e encarar, de frente, as consequências estruturais dessa migração para o financiamento da Previdência, da seguridade e do próprio Estado. Regular contribuição previdenciária na fonte, trazer transparência aos algoritmos e desenhar um modelo tributário compatível com a realidade são passos inadiáveis. Chamar sobrevivência de empreendedorismo pode render bons slogans; mas, para um país que pretende ser sério, é hora de alinhar narrativa, números e responsabilidade.