Em um mundo cada vez mais interconectado, acordos comerciais bilaterais e entre blocos regionais são instrumentos fundamentais para impulsionar o crescimento econômico, atrair investimentos e garantir previsibilidade jurídica para empresas.
O recente avanço nas negociações entre o Mercosul e a União Europeia é um exemplo claro de como decisões diplomáticas podem moldar o ambiente de negócios — e por que as empresas devem acompanhar esses movimentos com atenção estratégica.
O que está em jogo no acordo Mercosul-União Europeia
Após quase três décadas de negociações, o acordo entre os dois blocos foi concluído em dezembro de 2024 e representa o maior tratado comercial já firmado pelo Mercosul. Juntos, os países envolvidos somam cerca de 718 milhões de pessoas e um PIB combinado de US$ 22 trilhões.
Segundo o governo brasileiro, o acordo pode aumentar as exportações do país em até 26,6% na indústria de transformação, 14,8% em serviços e 6,7% na agricultura. Além disso, o tratado inclui compromissos com o desenvolvimento sustentável, proteção ambiental, empoderamento feminino e promoção de produtos sustentáveis, criando oportunidades para pequenos produtores, cooperativas e comunidades locais.
“Estamos criando uma das maiores áreas de livre comércio do mundo”, afirmou o presidente Lula durante a recente Cúpula do Mercosul em Montevidéu.
Por que isso importa para as empresas
Acordos como o Mercosul-UE oferecem redução de tarifas, acesso preferencial a mercados, padronização regulatória e segurança jurídica — elementos que influenciam diretamente decisões de investimento, expansão internacional e competitividade.
Segundo a secretária de Comércio Exterior do MDIC, Tatiana Prazeres, o acordo “valoriza a previsibilidade e a estabilidade, fundamentais para a tomada de decisões de investimento”.
Empresas que monitoram esses acordos com antecedência conseguem se preparar melhor para mudanças regulatórias, adaptar seus produtos às exigências dos novos mercados e identificar oportunidades de financiamento e cooperação internacional.
Acordos entre países também deve estar no radar
Um exemplo de articulação diplomática foi a recente visita oficial do presidente chileno Gabriel Boric ao Brasil, em julho de 2025, para, segundo informações oficiais, “reforçar a importância das relações bilaterais como vetor de desenvolvimento econômico dos dois países”.
Durante a visita, foi assinado um Memorando de Entendimento (MoU) entre a ApexBrasil e a ProChile, com o objetivo de fortalecer a promoção comercial entre os dois países e ampliar a internacionalização de empresas brasileiras e chilenas.
O acordo prevê ações conjuntas em mercados terceiros, compartilhamento de inteligência de mercado, organização de missões empresariais e capacitação técnica em temas estratégicos como segurança alimentar, ESG, equidade de gênero e bioeconomia. A iniciativa também contempla a promoção de setores estratégicos em eventos internacionais, como as Exposições Universais.
“O governo não faz negócio, o que podemos fazer é abrir as portas para que os empresários façam, e que eles saibam que o bom negócio é aquele em que os dois países ganham”, afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a cerimônia.
Além do MoU, o Fórum Empresarial Brasil-Chile reuniu cerca de 250 participantes, incluindo representantes de grandes empresas, autoridades e entidades setoriais. O evento discutiu a integração das cadeias produtivas e oportunidades em áreas como energia, turismo e finanças sustentáveis.
O Chile é hoje o 7º maior parceiro comercial do Brasil, com um intercâmbio que somou US$ 11,7 bilhões em 2024. O país também é o 2º maior investidor sul-americano no Brasil, com destaque para setores como energia, alimentos, mineração e serviços financeiros.
Outro ponto de destaque foi o seminário voltado para micro, pequenas e médias empresas (MPEs), que abordou os benefícios do Acordo de Livre Comércio Brasil-Chile, em vigor desde 2022. Segundo a ApexBrasil, cerca de 40% das 20 mil empresas atendidas em 2024 eram MPEs, e iniciativas como o PEIEX têm sido fundamentais para capacitá-las no processo exportador.
“Hoje temos um olhar bastante especial para as MPEs. Sensibilizar e qualificar essas empresas é essencial para que elas tenham sucesso na inserção internacional”, destacou Clarissa Furtado, gerente de competitividade da ApexBrasil.
Esse exemplo mostra como acordos bilaterais bem estruturados podem gerar benefícios concretos para empresas de todos os portes, especialmente quando acompanhados de políticas públicas voltadas à capacitação e à integração produtiva.
Monitorar é estratégico
Para empresas brasileiras — de grandes grupos a startups — acompanhar negociações comerciais internacionais não é apenas uma questão de curiosidade, mas de inteligência competitiva. Acordos como o Mercosul-UE podem redefinir cadeias de suprimentos, abrir novos mercados e alterar o cenário regulatório em que operam.
Além disso, em um contexto global marcado por tensões geopolíticas, barreiras comerciais e transformações tecnológicas, entender o posicionamento do Brasil nas relações internacionais é essencial para planejar o futuro dos negócios.