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Qual o cenário dos investimentos em 2026 com o impulso da IA e a deriva econômica

Participante do evento anual da Berkshire Hathaway, empresa do investidor Warren Buffet, que é a estrela do evento
Evento Outlook 2026, promovido pela J.P. Morgan Asset Management em Nova York, reuniu investidores institucionais para discussão do cenário de investimentos globais

Uma reunião com grandes investidores globais institucionais, geralmente os que possuem os maiores cheques, para discutir cenários e perspectivas não é mais um evento sobre economia. Por isso, a GZM acompanhou de perto o Outlook 2026, realizado pelo banco de investimentos americano J.P. Morgan Asset Management, nos dias finais de 2025, para captar o que circula na conversa e na visão de quem está “acima da estratosfera” no cenário de investimentos no mundo. 

Entre os dados de leitura de cenário, David Kelly, Chief Global Strategist do banco, resumiu a fotografia de curto prazo da economia global consolidada em números: crescimento próximo de 0% no quarto trimestre de 2025, acelerando para algo “acima de 3%” na primeira metade de 2026, antes de convergir para cerca de 2% ao fim do ano. “A economia continua crescendo. Cresce mais rápido no começo e desacelera depois”, diz ele, projetando um cenário sem recessão técnica ao longo do período.

Nesse quadro, a taxa de desemprego subiu até algo em torno de 4,5% no fim de 2025, recuando lentamente ao longo de 2026, sem o “salto típico de recessão” no mercado de trabalho. A inflação, por sua vez, deve sofrer um repique com o efeito de tarifas comerciais mais altas e, depois, convergir para a vizinhança de 2%, compondo um ambiente de “2% de crescimento, 2% de inflação e 4% de desemprego” – uma espécie de retorno ao padrão de 2024, porém mais frágil.

IA como motor de investimento

O grande diferencial de 2026, na leitura do painel, é o impulso da inteligência artificial sobre o investimento. Enquanto o consumo das famílias perde fôlego, investimentos ligados a IA, data centers e automação seguem robustos e, em alguns relatórios, já aparecem contribuindo mais para o crescimento dos EUA do que o gasto das famílias.

No evento, os estrategistas destacaram uma “enorme cauda de vento tecnológica” vinda da IA, que sustenta atividade e lucros em setores específicos mesmo com juros mais altos e volatilidade política. O lado menos visível é a infraestrutura necessária: “toda essa IA, todos esses modelos de linguagem precisam de energia de algum lugar. São extremamente intensivos em energia”, observou um dos participantes, apontando oportunidades em geração e redes elétricas.

A deriva: desigualdade, divergências e riscos

Sob a superfície do crescimento, porém, o painel insistiu na ideia de “deriva econômica”. “Temos uma expansão em K”, resumiu Jack Manley, Global Market Strategist do J.P Morgan, em que “as pessoas no topo estão indo muito melhor em riqueza e renda”, enquanto uma parcela expressiva da população sente salários apertados, custo de vida elevado e pouco acesso aos ganhos da IA.

Essa divergência se manifesta também entre regiões e classes de ativos: os EUA seguem puxando o ciclo com boom de tecnologia e infraestrutura ligada à IA, enquanto Europa e parte dos emergentes enfrentam crescimento fraco, mais dependente de investimento público em defesa e obras, e menos expostos ao “bônus de produtividade” dos algoritmos. O resultado é um mundo em que “os números macro parecem razoáveis, mas o sentimento está muito ruim”, combinação que alimenta polarização política, risco regulatório e surpresas negativas em mercados.

Política econômica: tarifas, Fed e fragmentação

No campo da política econômica, o painel chamou atenção para o impacto persistente de tarifas comerciais elevadas e da fragmentação geopolítica sobre inflação e cadeias de suprimentos. A mensagem é que a inflação de bens não volta automaticamente ao padrão pré‑pandemia em um mundo de “tariff policy” agressiva, reconfiguração de cadeias produtivas e sobreposição entre agenda de segurança e decisões econômicas.

Para o Federal Reserve, isso significa navegar um equilíbrio delicado: juros altos o suficiente para manter a inflação ancorada num contexto de estímulo via investimento em IA e defesa, mas não tão altos que quebrem uma economia que já mostra sinais de desaceleração no consumo. Em paralelo, cresce a importância de políticas fiscais e industriais – dos EUA à Europa e à China – para orientar investimentos em infraestrutura digital, energia e segurança de dados.

Portfólios na era da “AI lift”

Do ponto de vista de investidores institucionais – público‑alvo do encontro –, a mensagem principal é a de que 2026 exigirá mais sofisticação na construção de portfólios. O painel enfatizou alguns destaques, entre eles:

  • Diversificação real, e não apenas nominal, entre classes de ativos e geografias;
  • Atenção ao ponto de partida “elevado” de valuations em setores diretamente ligados à IA, onde a exuberância dos preços pode contrastar com ganhos de produtividade mais graduais;
  • Uso de alternativas (infraestrutura, crédito privado, ativos reais) para capturar o ciclo de investimento em IA e energia sem depender apenas de ações de tecnologia de mega‑caps.

Há também um alerta contra a complacência com a atual “deriva” dos portfólios: com ações de tecnologia e IA tendo se valorizado muito em 2025, muitos investidores terminaram o ano com alocações bem acima do planejado em poucos nomes e setores. “Reequilibrar o drift de portfólio” em 2026, devolvendo parte desses ganhos para uma estrutura mais balanceada, apareceu como recomendação recorrente na conversa.

Entre o impulso e o desvio

A síntese que emerge do evento é a de uma economia atravessada por um paradoxo. De um lado, a inteligência artificial oferece a melhor chance em décadas de destravar produtividade, aliviar gargalos de oferta e sustentar crescimento mesmo com demografia adversa e finanças públicas pressionadas. De outro, o modo como esse impulso está se materializando – concentrado em poucos países, setores e grupos de renda – alimenta o que os estrategistas chamam de “deriva econômica”: desigualdade maior, sentimento pior e mercados mais vulneráveis a choques de confiança.

Para empresas, governos e investidores, 2026 começa, assim, com uma pergunta central: será possível transformar o “AI lift” em base de crescimento mais amplo e sustentável ou a economia continuará à deriva, sustentada por ilhas de prosperidade cercadas por mar de frustração? A resposta, sugerem as projeções e alertas debatidos no painel, dependerá menos da tecnologia em si e mais das escolhas de política, estratégia corporativa e regulação que forem feitas ao longo deste ano.

A GZM acompanhou o evento, realizado em Nova York, de forma online a partir de São Paulo.

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