Eram 9 da manhã de quarta-feira, 10 de dezembro, em São Paulo. O céu estava parcialmente nublado, sem chuva à vista. E, mesmo assim, o vento começou a subir. Primeiro em rajadas moderadas, depois com força crescente, até alcançar 98,1 km/h na Lapa, Zona Oeste da capital – um cenário incomum, porque a meteorologia registrava pela primeira vez na história que a capital paulista sofria vendaval de tal magnitude sem acompanhamento de chuva.
Ao longo de mais de 12 horas, o fenômeno derrubou 510 árvores, arrancou fiações de postes e destruiu parte da infraestrutura elétrica da região. O resultado: mais de 2,2 milhões de pessoas ficaram sem energia em São Paulo e Região Metropolitana, sendo 1 milhão apenas na capital – aproximadamente 23% de todos os clientes da Enel-SP.
Mas o apagão foi apenas o sintoma. Os números seguintes descrevem a doença estrutural das cidades brasileiras frente aos impactos climáticos. Comércio e serviços perderam ao menos R$ 1,54 bilhão em faturamento entre quarta e quinta-feira, segundo a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). Na Grande São Paulo especificamente, o comércio deixou de faturar R$ 51,7 milhões apenas no primeiro dia do apagão, de acordo com o Instituto de Economia Gastão Vidigal da Associação Comercial de São Paulo (IEGV/ACSP).
Instituições financeiras, hospitais, fábricas, shoppings, restaurantes, farmácias e milhares de pequenos comércios viram sua operação paralisada não por falta de demanda, mas porque a infraestrutura que as sustenta cedeu em horas. Para além dos números divulgados nos primeiros dias, a FecomercioSP e economistas alertam que as perdas reais serão ainda maiores, porque não incluem os estoques perdidos, os custos fixos mantidos mesmo sem receita, os atrasos em cadeias de produção e a contaminação de confiança do consumidor.
O episódio não foi isolado. Em outubro de 2024, apenas dois meses antes, outro temporal havia deixado 3,1 milhões de pessoas sem energia na mesma região – na época, o maior apagão já registrado pela Enel em sua área de concessão, com perdas estimadas em quase R$ 2 bilhões. A frequência é o aviso que o cenário climático coloca sobre a mesa: eventos extremos não são mais exceção em grandes centros urbanos brasileiros; são a nova normalidade com a qual cidades e suas infraestruturas precisam aprender a viver.
Padrão de vulnerabilidade: quando clima encontra estrutura frágil
A vulnerabilidade de São Paulo e de outras cidades brasileiras a eventos climáticos extremos não é acidental. Ela nasce do encontro entre dois fatores: a aceleração de eventos extremos, de um lado, e infraestruturas desenhadas, construídas e operadas para um cenário climático diferente do atual, de outro. A queda de árvores sobre fiações é um bom exemplo dessa assimetria.
A distribuição de energia em São Paulo depende de uma malha aérea que cobre a maior parte da cidade; árvores crescem entre edifícios e ruas; ventos, hoje mais intensos e impredizíveis, derrubam árvores; árvores caem sobre fios. Para quem trabalha em logística, medicina de emergência ou varejo, não há “plano B”: sem eletricidade, o sistema simplesmente não funciona.
O mesmo vale para água. A Sabesp confirmou que, durante o apagão de terça e quarta, várias regiões perderam abastecimento de água porque o bombeamento depende de energia elétrica – e, sem energia, as estações não conseguem levar água para os bairros mais altos. Semáforos apagaram; o trânsito se transformou em caos; centenas de voos foram cancelados porque aeroportos perderam funcionalidade sem eletricidade. A interdependência é tão completa que uma única falha se espalha em cascata: não é apenas “falta de luz”, é paralisia urbana.
O economista Ulisses Ruiz de Gamboa, da ACSP, resumiu o impacto do lado do consumo: “O efeito principal ocorre pela diminuição das compras imediatas e das decisões impulsivas de consumo”. Ou seja, num ambiente urbano onde 88% das pessoas usam aplicativos de delivery, onde a economia de última hora e a conveniência são pilares de comportamento, um apagão que dura horas se traduz em queda brusca de demanda e, para muitos negócios, em impossibilidade de operar.
Restaurantes não conseguem cozinhar; supermercados não conseguem abrir portas ou geladeiras; academias não conseguem funcionar; consultórios não conseguem atender – cada um desses setores perde receita em tempo real, enquanto custos fixos (aluguel, folha, financiamentos) continuam rodando.

E se fosse diferente?
É nesse ponto que cidades como Copenhagen, Singapura, Nova Iorque e Melbourne entram no debate. Não porque tenham “resolvido” o problema climático – ninguém resolveu –, mas porque começaram a organizar suas infraestruturas elétrica, de água, de transporte e de saúde de modo que eventos extremos causem disrupção, mas não paralisação. O City Energy Resilience Framework (CERF), desenvolvido pela Resilient Cities Network em parceria com organismos internacionais, oferece justamente um mapa para cidades pensarem “resiliência energética”. O framework trabalha com quatro dimensões principais:
Pessoas (educação, empoderamento, engajamento de stakeholders); Governança (regulação, liderança coordenada, planejamento integrado); Recursos (uso responsável de natureza, infraestrutura informada por riscos, gestão eficaz de cadeias de suprimento); e Sistemas (provisão inclusiva de serviços, finanças sustentáveis, operações adaptativas).
Cidades resilientes adotam práticas como: diversificação das fontes de energia (renováveis descentralizadas, microgrids, sistemas de bateria); redundância na infraestrutura crítica (duplos circuitos, rotas alternativas); sistemas de alerta precoce integrados; planos de recuperação ágil; seguros e fundos de contingência pré-definidos; educação da população para cenários de emergência; acordos entre governo, concessionárias e setor privado para priorização de serviços essenciais durante crises. Não é mágica. É planejamento, investimento, governança e mudança de mentalidade.
Singapura, por exemplo, após enfrentar apagões causados por eventos climáticos nos anos 2010, reformulou sua estratégia energética: hoje combina geração centralizada (que fornece estabilidade) com painéis solares descentralizados, sistemas de bateria em edifícios críticos, microgrids em alguns bairros e, crucialmente, redundância planejada em circuitos de distribuição, de modo que, se uma linha cai, as outras assumem a carga.
O resultado é que o país sofre muito menos com apagões mesmo em cenários de manutenção ou eventos climáticos moderados, e está preparado para eventos extremos com planos testados de shed (desligamento controlado) que priorizam hospitais, centros de dados, infraestrutura de água.
Melbourne, na Austrália, enfrentou ondas de calor cada vez mais intensas, que comprometiam a rede de distribuição de eletricidade (transformadores “queimam” com picos de demanda de ar-condicionado). A resposta foi integrar eficiência energética em códigos de construção, incentivar energia solar residencial com subsídios, criar comunidades com microgrids e, sobretudo, estabelecer planos de carga gerenciada onde, em momentos críticos, há coordenação entre consumidores, distribuidoras e geradores para evitar picos catastróficos. O custo inicial é alto; mas o custo de apagões recorrentes de milhões de pessoas é maior.

Análise GZM: se preparar é possível. E necessário
São Paulo é a maior metrópole do Brasil, com Produto Interno Bruto superior ao de muitos países. Sua capacidade de investimento, capacidade técnica e escala deveriam permitir uma transição para um modelo de infraestrutura mais resiliente. Não há razão – além da própria decisão organizacional e política – pela qual a cidade não pudesse começar a implementar medidas concretas a partir de agora. E o exemplo paulistano vale para outras cidades brasileiras, certamente, mesmo com menor capacidade de ação, porém com instrumentos disponíveis para atuar na prevenção.
No caso base de São Paulo, o primeiro passo: diagnóstico honesto. A Enel, a Sabesp, a prefeitura e os órgãos de planejamento precisam mapear com precisão onde estão os gargalos críticos – não só na rede de distribuição, mas na dependência de energia para água, esgoto, transporte, comunicação, saúde. Esse diagnóstico existe em cidades como Singapura e Melbourne; pode existir em São Paulo.
Segundo passo: investimento em redundância. Parte da receita de concessão deveria ser alocada (e obrigada contratualmente) para diversificação de fontes, reforço de linhas críticas, implantação de microgrids em bairros estratégicos e sistemas de bateria em pontos nevrálgicos. Isso custa. Mas a Enel já cobrou os apagões em conta de clientes; agora deve se submeter a metas de confiabilidade com penalidades efetivas caso as falhe.
Terceiro passo: coordenação pública-privada com metas. O setor privado – hospitais, data centers, indústrias, comércio – tem incentivo próprio para ser resiliente. Governos devem criar marcos regulatórios que incentivem (e em alguns casos obriguem) investimentos em geração distribuída, armazenamento e eficiência energética. Cidades como Melbourne fizeram isso; O Brasil também pode fazer.
Quarto passo: educação e comunicação. Planos de emergência não funcionam sem população informada e treinada. Cidades resilientes investem em campanhas de awareness, protocolos comunitários de auxílio mútuo e comunicação clara e honesta sobre riscos.
O custo? Estimativas internacionais sugerem que cada real investido em resiliência evita dez reais em perdas por eventos climáticos no longo prazo. Para uma cidade que acaba de perder 1,54 bilhão em faturamento em dois dias de apagão, esse cálculo não é acadêmico.
A pergunta que São Paulo, Rio, Salvador, Manaus e outras cidades brasileiras precisam fazer não é “por que temos que gastar com resiliência?”, mas “como podemos deixar de pagar bilhões a cada novo vendaval?”. As respostas existem. Cidades as implementam. O Brasil não precisa inventar a roda; precisa apenas decidir que quer rodar em carro seguro.