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Quando falamos sobre Brasil, uma das principais discussões é sobre a sustentabilidade da dívida. Como ela afeta o bolso do cidadão e investidor?

Por Jaques Cohen, planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejamento Financeiro.

Em primeiro lugar, é importante contextualizar a pergunta dentro do panorama global das últimas décadas.

De 2008 para cá, a dívida cresceu em todo o mundo, tanto em economias avançadas quanto em emergentes. A pandemia exigiu novo gasto extraordinário e, em seguida, vieram choques de oferta ligados ao pós-covid e à guerra da Ucrânia. A inflação resultante levou os bancos centrais a subir juros. Nesse cenário, países com títulos de prazo curto ou indexadores flutuantes, como o Brasil, sentem mais os efeitos.

Mais que o patamar, importa a trajetória. O Brasil convive com forte rigidez orçamentária: mais de 90% das despesas são obrigatórias e boa parte do restante (despesas discricionárias) está comprometida com emendas parlamentares. Como a evolução dos gastos segue dinâmicas demográficas e vinculações, já é possível dizer que a tendência é sobrar cada vez menos espaço.

No cenário global, dívidas elevadas em grandes economias têm contextos próprios: os EUA contam com a moeda de reserva global, o Japão com alta poupança doméstica e a Europa com sua rede de proteção coletiva na zona do Euro. Já na América Latina, Chile e México têm dívidas relativamente menores em relação ao PIB, conseguem prazo médio cerca de duas vezes mais alongado que o Brasil e preservam o grau de investimento, refletindo maior confiança.

Existem questões que precisam ser negociadas pela sociedade no campo político, com seus prós e contras, mas independentemente do governo de turno em 2027, o estrangulamento das despesas discricionárias tende a impor a realização de reformas, possivelmente em meio a turbulências nos preços dos ativos, às quais o investidor deve ficar atento.

O gasto público também está relacionado à inflação e juros, já que o dinheiro em circulação aumenta a demanda por bens e serviços, encarecendo os preços. O Banco Central atua com a taxa de juros para conter esse processo, e ela repercute diretamente nos investimentos: juros altos reduzem o apetite pela renda variável; juros baixos estimulam crédito e consumo.

Apesar dos desafios, o Brasil tem reservas significativas e o risco de crédito (de não pagamento) é considerado baixo, diferente da Argentina, que enfrentou recentemente dificuldades em rolar sua dívida. O risco mais evidente no curto prazo é o de mercado, ou seja, de oscilação no preço dos ativos.

Na renda fixa prefixada ou atrelada ao IPCA, quando os sinais são de déficits e aumento da dívida, os credores cobram mais caro na emissão de novos papéis. Isso faz com que quem detém os papéis antigos fique com investimentos inferiores aos da nova emissão e, dessa forma, eles se desvalorizem. O movimento contrário também é verdadeiro: quando os sinais começam a melhorar, os papéis com a taxa antiga têm seu preço remarcado para cima.

Nesse ponto, muitos investidores podem se sentir confusos, pois a renda “fixa” apresenta volatilidade e, contra intuitivamente, os papéis prefixados são os mais afetados no processo. Isso acontece porque, nos pós-fixados — como os atrelados à Selic ou ao CDI — a rentabilidade dos títulos se ajusta automaticamente à nova realidade, sem que seu preço precise ser remarcado.

Prazo é outro fator: quanto mais longo o título, maior a sensibilidade ao cenário fiscal. Uma estratégia possível é diversificar prazos, alongando a exposição da carteira na medida da tolerância ao risco do investidor.

Também é importante observar a classificação de risco dos emissores privados, o que torna a atenção ao prazo desses papéis ainda mais relevante. No caso dos bancários, a cobertura do FGC protege apenas contra o risco de crédito, dentro dos limites previstos, e não contra oscilações de mercado.

Diante do cenário, cabe ao investidor acompanhar atentamente as contas públicas, sem transformar, porém, a atenção em desespero com rearranjos excessivos na sua carteira.

Email: projetos@naturezaeconomica.com.br

As respostas refletem as opiniões do autor e não da Gazeta Mercantil Digital ou da Planejar. O veículo e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Perguntas devem ser encaminhadas para: redacao@gazetamercantil.digital 

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