Ao longo da história, a função do dinheiro esteve associada a dois pilares centrais. A natureza, representada por ativos fisicamente escassos como ouro e prata, e o Estado, por meio das moedas fiduciárias. Em ambos os casos, o valor dependia de algo externo ao indivíduo. Da raridade física de um recurso natural ou da confiança em instituições responsáveis por emitir, regular e preservar o poder de compra da moeda ao longo do tempo.
Nas últimas décadas, esse arranjo passou a apresentar sinais crescentes de desgaste. A expansão contínua da base monetária, o recurso recorrente a políticas emergenciais e a erosão persistente do poder de compra tornaram o sistema fiduciário cada vez mais frágil como instrumento de preservação de valor. Ainda assim, ele permanece dominante, sustentado mais por inércia institucional e ausência de alternativas consolidadas do que por solidez estrutural.
É nesse contexto que emergem os sistemas de dinheiro digital baseados em tecnologia. Ao longo desta série de artigos, foram analisados dois exemplos representativos desse movimento. O Bitcoin, concebido como dinheiro digital, consolidou-se como reserva de valor em função de escolhas técnicas altamente conservadoras, que priorizaram previsibilidade, segurança e resistência a interferências. Em seguida, arquiteturas mais recentes, como a da Kaspa, foram examinadas por buscarem maior fluidez operacional, especialmente no tempo de confirmação das transações, preservando princípios como escassez programada, descentralização e segurança baseada em prova de trabalho.
Este terceiro texto amplia o foco. O interesse desloca-se dos projetos específicos para a transformação estrutural que se desenha quando o dinheiro passa a operar como uma infraestrutura tecnológica.
Nesse novo contexto, um conceito torna-se central para a compreensão do fenômeno. As chamadas escolhas de engenharia monetária referem-se a definições concretas de funcionamento do sistema. Com que frequência novas unidades são criadas. Quanto tempo uma transação precisa aguardar para ser considerada definitiva. Quem pode validar operações e sob quais regras. Como o sistema reage a tentativas de fraude ou manipulação. Essas definições, historicamente tomadas por autoridades monetárias e operadores de sistemas financeiros, passam a estar inscritas no próprio funcionamento do sistema, sendo executadas automaticamente e verificáveis por qualquer participante.
No regime fiduciário tradicional, tais definições são ajustáveis ao longo do tempo histórico. Taxas podem ser revistas, regras podem ser flexibilizadas e exceções podem ser introduzidas em nome da estabilidade ou da emergência. O efeito prático dessa flexibilidade é a redução da previsibilidade. A perda de poder de compra tende a ocorrer de forma gradual, frequentemente diluída ao longo do tempo, tornando-se perceptível apenas retrospectivamente.
Nos sistemas de dinheiro digital baseados em código, a lógica operacional é distinta. Escassez assume a forma de regra técnica. Emissão segue cronogramas previamente definidos. A liquidação de transações obedece a critérios técnicos transparentes. A confiança deixa de se apoiar predominantemente em promessas institucionais e passa a emergir do funcionamento contínuo do sistema. Isso não elimina riscos nem garante estabilidade absoluta, mas altera profundamente a natureza da previsibilidade monetária.
O caso do Bitcoin ilustra esse deslocamento de forma clara. A adoção de um ritmo lento e altamente seguro de validação de transações resultou em um sistema pouco adequado para pagamentos cotidianos rápidos. Essa característica operacional acabou moldando sua função econômica ao longo do tempo. O Bitcoin passou a ser percebido majoritariamente como instrumento de preservação de valor, comparável ao ouro, porém em formato digital, verificável e independente de custodiante central.
Arquiteturas posteriores partiram desse aprendizado e adotaram combinações técnicas distintas. Ao reorganizar a forma como transações são validadas e blocos são aceitos, buscam reduzir latência e aumentar fluidez operacional. Essas escolhas ampliam o espaço de aplicação do dinheiro digital, ao mesmo tempo em que introduzem novos compromissos técnicos. Cada configuração resolve determinados problemas e impõe novos limites. O dinheiro passa a refletir, de forma explícita, os compromissos técnicos embutidos em sua arquitetura.
A partir dessa transformação estrutural, alguns cenários tornam-se plausíveis.
Um primeiro cenário é o da convivência funcional. Diferentes sistemas monetários passam a coexistir, cada um desempenhando funções específicas. Ativos digitais mais conservadores tendem a ocupar o papel de reserva de valor. Sistemas com maior fluidez operacional encontram espaço em pagamentos, liquidação e transferências internacionais. O dinheiro deixa de ser uma solução única e passa a assumir a forma de um conjunto de infraestruturas complementares.
Outro cenário é o da especialização técnica. À medida que regras monetárias se tornam explícitas no código, o debate econômico incorpora dimensões técnicas antes restritas a engenheiros e arquitetos de sistemas. Discussões sobre política monetária passam a envolver temas como latência, custo computacional, incentivos econômicos e governança técnica. O dinheiro assume, progressivamente, características de um sistema projetado.
Há também o cenário da absorção institucional. Mesmo que sistemas de dinheiro digital não substituam moedas fiduciárias, suas ideias tendem a influenciar a evolução de sistemas tradicionais. Processos de liquidação mais rápidos, maior transparência e regras automáticas passam a ser incorporados gradualmente, ainda que sob arranjos regulatórios específicos.
Outro cenário possível é o da fragmentação. A proliferação de sistemas monetários digitais com regras distintas pode aumentar a complexidade do ecossistema e exigir novas camadas de intermediação. A diversidade de soluções, sem padrões mínimos compartilhados, tende a gerar novos pontos de fricção.
Por fim, existe o cenário da irrelevância relativa. Parte dessas inovações pode permanecer como experimentos tecnicamente sofisticados, relevantes do ponto de vista conceitual, mas incapazes de alcançar escala suficiente para alterar sistemas amplos. A história da tecnologia mostra que esse desfecho é recorrente.
Esses cenários não são mutuamente excludentes. Podem coexistir e se sobrepor ao longo do tempo histórico. O que se observa no presente é um período de reorganização estrutural do dinheiro. Regras antes implícitas tornam-se explícitas. Decisões antes políticas passam a ser incorporadas a parâmetros técnicos. A confiança assume, progressivamente, uma dimensão verificável.
A partir desse panorama, alguns desafios se colocam de forma clara para o futuro. Um deles é o desafio da compreensão. Em um ambiente no qual o dinheiro passa a operar como infraestrutura, a alfabetização econômica passa a incluir noções básicas de funcionamento técnico. Outro desafio é o da governança. Sistemas baseados em código reduzem arbitrariedades, mas exigem mecanismos claros de evolução e adaptação ao longo do tempo. Há também o desafio da integração. A convivência entre sistemas tradicionais e infraestruturas digitais demandará pontes, padrões e novos modelos institucionais.
Por fim, existe o desafio mais amplo da responsabilidade coletiva. Transformar regras monetárias em código implica tornar escolhas estruturais permanentes. Decisões técnicas passam a ter efeitos duradouros sobre comportamentos econômicos e sociais. Compreender essas escolhas, seus limites e suas consequências torna-se parte essencial do debate sobre o futuro do dinheiro.
Encerrar esta série significa reconhecer que o dinheiro entrou em uma nova fase de sua história. Uma fase em que valor, tecnologia e confiança se entrelaçam de forma explícita. O desfecho desse processo permanece em aberto. A forma como esse processo será conduzido dependerá das infraestruturas que forem construídas, das regras que forem codificadas e da capacidade coletiva de compreender o que está em jogo antes que essas escolhas se tornem irreversíveis.
Nota ao leitor
Este artigo encerra uma série dedicada a discutir o dinheiro a partir de suas transformações tecnológicas e institucionais. Os textos buscaram organizar conceitos e apresentar cenários possíveis, sem a pretensão de conclusões definitivas, em um tema que segue em evolução.
Marcelo Massarani é Professor Doutor da Escola Politécnica da USP, Diretor Acadêmico da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, membro do Conselho Diretor do Instituto da Qualidade Automotiva e Conselheiro consultivo