Repensar o ensino da medicina

Por Ricardo Mucci, jornalista, CEO da Umana Media House e Head da editoria de Silver Economy da GZM

A transição demográfica deixou de ser projeção estatística para se tornar fato social incontornável. O Brasil já vive uma inflexão histórica: segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2023 o país passou a ter mais pessoas com 60+ (15,6%) do que jovens entre 15 e 24 anos (14,8%). Em pouco mais de duas décadas, a população idosa praticamente dobrou.

Esse movimento impõe ajustes estruturais em múltiplas dimensões — previdência, mercado de trabalho, urbanismo, saúde — e, de forma particularmente sensível, na formação médica.

A medicina do século XX foi moldada para enfrentar doenças agudas, infecciosas e eventos cardiovasculares precoces. A medicina do século XXI precisa lidar com cronicidade, multimorbidade, fragilidade, demência, câncer e cuidados de fim de vida. Não se trata apenas de tratar mais idosos, mas de compreender o envelhecimento como processo biológico, social e funcional e, investir na prevenção que é mais barata e inteligente.

Especialistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) alertam que os currículos ainda não acompanham a velocidade da mudança demográfica. Embora as diretrizes nacionais tenham incorporado cuidados paliativos como conteúdo obrigatório em 2022, a integração prática dessas competências permanece desigual.

Entidades como a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e a Academia Nacional de Cuidados Paliativos vêm pressionando por conteúdos mínimos obrigatórios em Geriatria e cuidados paliativos. A distinção é crucial: “saúde do idoso” não equivale à formação sob a ótica do geriatra.

O avanço da oncologia ilustra o desafio. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) projeta 781 mil novos casos anuais de câncer entre 2026 e 2028. Em 2023, o câncer já era a principal causa de morte em 670 municípios brasileiros — tendência associada ao envelhecimento e à maior longevidade.

Ao mesmo tempo, dados da “Demografia Médica no Brasil 2025”, da Universidade de São Paulo (USP), indicam que apenas 8% dos médicos cursavam residência em 2024, enquanto mais de 244 mil atuavam como generalistas sem título de especialista. Há, portanto, um descompasso entre formação, especialização e demanda epidemiológica.

Mas a mudança curricular não é apenas técnica. Ela é conceitual.

A longevidade está diretamente associada à qualidade de vida e à prevenção. Promover saúde — prevenção primária, secundária, terciária e quaternária — é economicamente mais racional do que concentrar recursos em internações, cirurgias e tratamentos prolongados. Aliás, há uma crítica transversal que permeia esse debate que é a monetarização da saúde, que tem provocado o êxodo dos planos de saúde e a migração para o SUS. Movimento que tem como consequência a superlotação do sistema público de saúde.

Essa nova realidade exige médicos treinados em comunicação empática, tomada de decisão compartilhada, trabalho em equipe multidisciplinar e coordenação do cuidado. Em Geriatria e cuidados paliativos, ninguém atua sozinho.

Como estudioso da longevidade, vejo aqui um ponto estratégico: formar médicos preparados para uma sociedade envelhecida é condição para sustentabilidade fiscal, eficiência do sistema de saúde e dignidade humana.

Não podemos continuar ensinando medicina como há 50 anos.

O envelhecimento populacional não é uma variável marginal. É o eixo estruturante da nova agenda sanitária do planeta.

Apesar dos desafios inerentes, temos pela frente uma necessidade e uma oportunidade. Quem compreender isso primeiro — universidades, gestores, profissionais, empresas e investidores — estará mais apto a responder aos desafios do século XXI e se beneficiar dessa visão de futuro.

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