Há alguns anos, eu via a revisão tributária como uma medida de reação. Era acionada quando a empresa enfrentava dificuldades de caixa, recebia uma autuação ou precisava corrigir algo urgente. Hoje, enxergo um cenário completamente diferente. A revisão tributária tornou-se parte essencial da estratégia de capital das empresas brasileiras — um instrumento de gestão, de eficiência e, acima de tudo, de inteligência financeira.
Ao longo da minha atuação, percebi que muitas empresas convivem com bilhões de reais adormecidos em créditos tributários. São valores que poderiam estar sendo recuperados, compensados ou reinvestidos. Esse movimento começou a ganhar força com a união de três fatores que mudaram a forma de pensar o setor: decisões judiciais recentes, automação fiscal e inteligência de dados. Essa combinação abriu caminho para um novo ciclo de revisão tributária, muito mais técnico, estratégico e preventivo.
Costumo dizer que a falta de revisão periódica é o imposto invisível mais caro que uma empresa pode pagar. Essa frase resume bem o que observo todos os dias: organizações que poderiam operar com mais liquidez, mas que desconhecem o valor que está parado no sistema tributário. O grande ponto de virada ocorreu em 2021, com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que excluiu o ICMS da base de cálculo do PIS e da COFINS. A partir dali, o mercado começou a revisitar suas bases de cálculo, identificar recolhimentos em duplicidade e corrigir equívocos históricos.
Empresas de diversos setores — serviços, indústria e agronegócio — passaram a abrir seus balanços e reavaliar anos de declarações, em busca de valores pagos a maior. Paralelamente, a Receita Federal digitalizou seus sistemas e integrou ferramentas como SPED, EFD-Reinf e e-Social. Esse avanço trouxe mais transparência e rastreabilidade aos dados fiscais, o que possibilitou revisões mais seguras e bem documentadas. O que antes parecia arriscado se tornou uma prática legítima, ancorada em tecnologia e jurisprudência.
Recuperar tributos deixou de ser um socorro emergencial. Hoje, é parte do planejamento financeiro e da governança das empresas. A tecnologia tem um papel fundamental nisso. Os softwares de compliance e auditoria tributária evoluíram de forma impressionante. Sistemas de inteligência artificial conseguem cruzar dados, apontar inconsistências e revelar oportunidades de crédito em questão de segundos. Com auditorias recorrentes, muitas empresas têm conseguido recuperar entre 1% e 3% da receita anual em créditos esquecidos. Na prática, isso significa dinheiro suficiente para financiar expansão, inovação ou amortizar dívidas.
Apesar de toda essa agilidade, sigo reforçando a importância da prudência jurídica. Recuperar crédito é um direito, mas exige base legal sólida, documentação completa e acompanhamento especializado. A tecnologia pode acelerar o processo, mas não substitui a segurança que só um olhar técnico oferece. O aumento das compensações automáticas via PER/DCOMP e e-CAC é um bom exemplo disso. Ele trouxe agilidade, mas também fez crescer o número de glosas e autuações. Muitas delas decorrem de erros simples: falta de lastro, falhas contábeis ou enquadramento incorreto. Por isso, acredito que o equilíbrio entre tecnologia e técnica jurídica é o ponto central da nova revisão tributária.
Hoje, estima-se que o total de créditos tributários passíveis de restituição no Brasil ultrapasse R$500 bilhões. São recursos concentrados, principalmente, nos setores de serviços, indústria e agronegócio. Grandes empresas já tratam esses créditos como instrumento de gestão de caixa e de redução de endividamento, enquanto as pequenas e médias começam a adotar auditorias preventivas e plataformas de compliance fiscal.
Quando uma empresa resgata valores que estavam parados, ela ganha fôlego financeiro, reinveste e impulsiona a economia ao seu redor. A revisão tributária deixou de ser apenas um ajuste contábil: tornou-se parte da governança corporativa e um indicador de maturidade de gestão.
Olhando para frente, acredito que o futuro da área tributária será cada vez mais preventivo e analítico. Revisar tributos é tão essencial quanto revisar um balanço patrimonial. Ignorar isso é abrir mão de controlar o próprio ativo. Enquanto a Reforma Tributária ainda promete simplificação, o verdadeiro diferencial competitivo já está acontecendo — nas empresas que conseguem transformar passivos invisíveis em oportunidades concretas de caixa.