RIP diplomacia

Editorial da GZM do dia 28 de março de 2026 sobre o conflito militar entre EUA e Iran

Não é de hoje que se fala em crise do multilateralismo e em perda de relevância da diplomacia clássica. A diferença é que, agora, a sensação já não é de falha, mas de ausência. Na escalada recente de conflitos – da guerra na Ucrânia à devastação em Gaza, da crise permanente no Mar Vermelho à abertura de uma frente aberta entre Estados Unidos e Irã – a impressão incômoda é que a diplomacia sequer chegou a entrar em campo. Não houve a tentativa séria que fracassou; houve, na melhor das hipóteses, um protocolo de declarações vazias enquanto decisões de força eram tomadas em outro plano.

As grandes instituições multilaterais, desenhadas no pós‑Segunda Guerra para evitar exatamente esse tipo de espiral, parecem hoje sombras de si mesmas. O Conselho de Segurança da ONU paralisado por vetos sistemáticos, a própria Assembleia Geral reduzida a palco de discursos sem consequência prática, a Corte Internacional de Justiça e a CPI emitindo decisões que são solenemente ignoradas por quem detém poder militar. Em outras palavras: não é que o sistema tenha falhado ao tentar impedir a escalada – é que ele foi contornado, desconsiderado ou usado como biombo para decisões já tomadas.

É claro que a diplomacia nunca foi um mundo de boas intenções e soluções consensuais. Grandes acordos de paz sempre nasceram de equilíbrios incômodos, pressões, ameaças veladas e, muitas vezes, depois de muito sangue derramado. Mas havia, ao menos, a noção de que era preciso construir uma narrativa compartilhada, buscar algum tipo de legitimidade, preservar espaços de mediação. Hoje, até esse pudor parece ter se perdido. Ao assistir à sucessão de ataques e retaliações no Oriente Médio, por exemplo, o que chama atenção não é apenas a brutalidade dos fatos, mas o silêncio constrangedor de qualquer iniciativa diplomática com densidade real.

O que se vê, no lugar disso, é uma diplomacia relegada à função de assessoria de comunicação pós‑fato: chancelerias aparecem para justificar o injustificável, relativizar o inaceitável ou administrar danos reputacionais. As decisões estratégicas, essas, são tomadas em círculos cada vez mais estreitos, em nome de doutrinas de segurança nacional que não se sentem mais obrigadas a dialogar com a linguagem do direito internacional. Quando a força vira o primeiro recurso – e não o último –, não estamos apenas diante de uma crise de governança global; estamos diante da erosão da própria ideia de que uma guerra deva ser evitada.

O resultado prático é um mundo mais incerto para todos, inclusive para países médios como o Brasil, que dependem justamente de regras, previsibilidade e instâncias de mediação para proteger seus interesses. Sem diplomacia efetiva, aumentam os prêmios de risco, encurtam‑se os horizontes de decisão, encarece o custo de viver em sociedade – da energia ao alimento, do comércio ao investimento. E, sobretudo, o custo é pago em vidas. Porque se tem algo que, infelizmente, deixou de ser incerto é o derramamento de sangue: esse, sim, está garantido.

“RIP diplomacia” não deveria ser epitáfio, mas alerta. Se aceitarmos como inevitável um mundo em que tanques falam mais alto que embaixadas, não estaremos apenas enterrando um arranjo institucional – estaremos normalizando a barbárie como método. O desafio, para quem ainda acredita em alguma forma de ordem minimamente civilizada, é recusar essa naturalização: exigir dos governos que voltem a considerar a negociação como primeira opção, pressionar organismos multilaterais a se reinventar em vez de administrar irrelevância, e não ceder à tentação cínica de achar que “sempre foi assim”. Talvez nunca tenhamos precisado tanto de diplomacia como agora, justamente quando ela parece ter sido riscada da mesa.

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