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Safra de dívidas: inadimplência recorde no agro acende alerta na economia

Pressão sobre produtores e bancos exige soluções estruturadas e negociações estratégicas

O agronegócio brasileiro, um dos motores da economia nacional, enfrenta um dos momentos mais delicados das últimas décadas. A inadimplência no crédito rural atingiu 7,9% no primeiro trimestre de 2025, segundo dados da Serasa Experian — o maior índice já registrado. O número supera a média nacional de inadimplência entre pessoas físicas (5,3%) e jurídicas (4,1%), evidenciando a gravidade da crise no campo.

O impacto é direto sobre as instituições financeiras. O Banco do Brasil, maior financiador do setor, registrou no segundo trimestre sua menor rentabilidade desde 2016. A carteira de crédito rural da instituição, que soma R$ 404,9 bilhões, viu a inadimplência saltar de 0,96% no fim de 2023 para 3,94% em junho de 2025. E a presidente do banco, Tarciana Medeiros, alertou para pelo menos mais dois trimestres de estresse financeiro no segmento.


Choques externos e margens apertadas

A deterioração da capacidade de pagamento dos produtores parece estar associada a uma combinação de fatores: aumento dos custos de produção, queda nos preços das commodities, dificuldades de comercialização e instabilidade internacional. 

A imposição de tarifas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros — como café, carnes e frutas — também é um grande ponto de atenção, pois pode reduzir a competitividade dos exportadores e agravar ainda mais o cenário.

O resultado até aqui aponta para um ciclo de estagnação: produtores pressionados por margens cada vez mais estreitas, bancos restringindo crédito diante do risco elevado e uma cadeia produtiva ameaçada — de fornecedores a transportadores. A queda na oferta de crédito compromete investimentos em tecnologia, irrigação, armazenagem e expansão de áreas produtivas, com reflexos diretos no PIB nacional.

Mas a inadimplência no agro não é um fenômeno novo. Em ciclos anteriores, como entre 2022 e 2025, o setor enfrentou uma combinação de fatores que pressionaram o caixa dos produtores, como estiagens prolongadas ou excesso de chuvas, alta nos custos de insumos e juros elevados. 

A taxa Selic, que havia atingido mínimas históricas em 2020 e 2021, voltou a subir, encarecendo o crédito rural. A inadimplência ultrapassou 10% em regiões críticas como o MATOPIBA (região agrícola formada pelas siglas dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e o Centro-Oeste.


Comparativo de inadimplência por setor (1º trimestre de 2025)

SetorInadimplência (%)
Agronegócio (Pessoa Física)7,9%
Comércio varejista5,1%
Indústria4,3%
Serviços4,7%
Pessoa Física (geral)5,3%
Pessoa Jurídica (geral)4,1%

Fonte: Serasa Experian


Renegociação como saída estratégica

Entre as saídas possíveis diante desse cenário, algumas soluções alternativas devem ganhar espaço, como a criada pelo Grupo Studio, consultoria empresarial com mais de 14 verticais de atuação, que estruturou a solução Studio Agro, uma frente especializada em renegociação bancária para o setor rural. 

A proposta é reorganizar contratos, alongar prazos e adequar condições de pagamento ao fluxo de caixa real do produtor. Segundo a empresa, é possível reduzir em média 34% da dívida existente, com suporte técnico para evitar a perda de patrimônio ou a interrupção das atividades. A renegociação também atua sobre encargos excessivos e juros abusivos, devolvendo fôlego ao produtor.

Mas, ao mesmo tempo que se pensa nas soluções atuais, deve-se olhar para os ciclos passados das crises de inadimplência no agro brasileiro, que revelam um setor ao mesmo tempo vulnerável a choques externos, mas também capaz de se reinventar. A superação desses momentos, como apurado pela GZM, sempre exigiu ação coordenada entre produtores, instituições financeiras e o poder público. 

O futuro do agro, como se vê, depende da capacidade de antecipar riscos, diversificar estratégias e fortalecer os instrumentos de proteção — porque no campo, como na economia, quem planta previsibilidade colhe estabilidade.

A GZM conversou com exclusividade com Carlos Braga, CEO do Grupo Studio, para explorar mais detalhes sobre as soluções da empresa e também sua visão sobre os caminhos possíveis nesse momento delicado. Confira:


GZM: Quais são os principais erros que produtores cometem ao tentar renegociar dívidas diretamente com os bancos?

Braga: O maior erro é buscar a renegociação de forma isolada, sem um diagnóstico completo da saúde financeira da operação. Muitos produtores chegam aos bancos apenas com a pressão da inadimplência, mas sem apresentar dados consistentes de fluxo de caixa, projeções de safra ou garantias reais. Isso enfraquece a negociação e limita as condições oferecidas. 

Outro equívoco comum é tratar a dívida apenas como um problema imediato, sem pensar em uma estratégia de longo prazo que dê sustentabilidade ao negócio.

GZM: Como a Studio Agro identifica contratos com cláusulas abusivas ou juros excessivos?

Braga: Tudo começa com um diagnóstico personalizado, em que avaliamos contratos já firmados para identificar cláusulas abusivas, práticas de venda casada e juros acima da média de mercado. Esse processo é conduzido por uma equipe especializada, que além de apontar os riscos, estrutura a renegociação diretamente com os agentes financeiros.

Em paralelo, também trabalhamos a captação de recursos, buscando linhas de crédito mais adequadas ao perfil e à necessidade de cada produtor, garantindo acesso a condições mais equilibradas e sustentáveis.

GZM: Há resistência por parte das instituições financeiras em aceitar renegociações estruturadas? Como contornar isso?

Braga: Existe resistência, mas ela não está ligada à falta de interesse do banco em apoiar o setor. A questão é que as instituições precisam de previsibilidade e segurança para liberar crédito. Renegociações estruturadas, quando bem apresentadas, com números auditados, garantias claras e planejamento realista, tendem a ser melhor aceitas. 

O caminho é transformar a negociação em um processo profissional, envolvendo assessoria especializada e mostrando que o produtor tem condições de honrar os compromissos. Transparência e governança financeira são os maiores antídotos contra a resistência.

GZM: Que tipo de suporte técnico é oferecido aos produtores durante o processo de reorganização financeira?

Braga: Oferecemos suporte contábil e financeiro completo, organizando de forma estruturada o fluxo de caixa e balanços da empresa. Essa consultoria dá clareza à real situação do produtor e permite que todo o processo de renegociação seja conduzido com dados sólidos e transparência, aumentando a confiança dos agentes financeiros e a efetividade da reorganização.

GZM: A inadimplência atual pode comprometer a próxima safra? Como evitar que o ciclo de crédito se rompa definitivamente?

Braga: Sim, a inadimplência em alta compromete diretamente o crédito para a próxima safra, porque bancos e tradings ficam mais seletivos e restritivos. O risco é criar um efeito dominó: sem crédito, não há insumos, e sem insumos, a produtividade cai. 

Para evitar o rompimento desse ciclo, é essencial adotar três medidas: reestruturação financeira planejada, diversificação de fontes de crédito e gestão de riscos mais eficiente, incluindo seguros agrícolas e contratos de venda antecipada. O setor agro depende de crédito contínuo, e manter esse fluxo exige disciplina e profissionalismo na gestão.

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