Carregando...

Salute! O negócio do vinho no Brasil

Em visita à Serra Gaúcha, o jornalista Ricardo Mucci explorou os segredos da vinicultura nacional

Por Ricardo Mucci, Head da editoria de Silver Economy da GZM

A vitivinicultura, como é definida tecnicamente a produção de vinho, evolui firme e forte no Brasil. O consumo ainda é baixo, se comparado a outros países, mas o potencial de crescimento é imenso. Dois são os desafios: elevar a produção e educar o consumidor. 

No Brasil, o consumo de vinho tem crescido nos últimos anos, embora ainda esteja bem abaixo da média dos grandes mercados mundiais. O consumo per capita gira em torno de 2,7 litros por pessoa por ano, uma evolução significativa em comparação com anos anteriores, mas ainda modesto frente aos mercados europeus e norte-americanos. Em termos de produção e estrutura, o país conta com mais de 1.000 vinícolas, muitas delas familiares ou de pequeno porte, concentradas sobretudo no Rio Grande do Sul.

Entre as vinícolas em destaque estão Miolo, Valduga, Vinícola Garibaldi, Vinhos Halberth, além de produtores modernos como Vinícola Luiz Argenta, Vinícola Therae, Vinícola Terranova, que combinam tradição e inovação. Apesar de desafios como a concorrência de vinhos importados e a necessidade de ampliar a cultura de consumo no país, o Brasil ocupa posições expressivas em rankings globais. Figura entre os top 15 mercados consumidores e é um dos maiores produtores do Hemisfério Sul. 

Conversei com um expert, Jaime Milan, que acumulou grande experiência no setor e hoje atua como consultor da APROVALE (Associação dos Produtores do Vale dos Vinhedos) e de outras regiões do país, nos processos de certificação de Indicação de Origem e Procedência de vinhos. Aos 80 anos, ele vive e atua na Serra Gaúcha, que abriga as vinícolas mais famosas do Brasil. A região é composta por cidades como Bento Gonçalves e seu Vale dos Vinhedos; Garibaldi, conhecida como a capital do espumante; Flores da Cunha; além de Pinto Bandeira, Farroupilha, Monte Belo do Sul e Antônio Prado.

RM – A indústria vinícola no Brasil começou no século XVI, com as primeiras videiras trazidas por Martim Afonso de Souza em 1532, mas ganhou força e se consolidou com a chegada dos imigrantes italianos no século XIX, especialmente na Serra Gaúcha, e se modernizou a partir dos anos 1970 com tecnologias avançadas e investimentos, focando em vinhos de qualidade. Quais são os fatores determinantes para o setor se desenvolver nessa região?

JM – Alguns fatores foram importantes para o surgimento e desenvolvimento da vitivinicultura da Serra Gaúcha. Entre eles estão a cultura e a tradição dos imigrantes e suas necessidades. A alimentação, ampla e variada, deu origem a muitos setores de produção, entre eles o vinícola. As uvas para o vinho, inicialmente, eram americanas, com mudas fornecidas por imigrantes alemães, em 1876. Dez anos após, algumas famílias importaram variedades europeias, fazendo o primeiro passo para a evolução. A produção do vinho era feita pelas famílias, para atender seu consumo.

As eventuais sobras originaram, inicialmente, trocas (escambo), com outras famílias e comerciantes da região. Foi o passo inicial para o surgimento dos “negociantes de vinho” e, em 1890, ser criada a primeira empresa do setor, com adegas em Caxias do Sul e Bento Gonçalves. No início do século XX surgiram algumas empresas que ainda permanecem atuantes e, nos anos 30, as cooperativas. Também é deste período a legislação nacional. Os anos 60 e 70 marcaram grandes evoluções.

A criação do Colégio de Viticultura e Enologia, para formação dos primeiros técnicos brasileiros e da Embrapa, para desenvolver a pesquisa e sua propagação. Nesse período, alguns grupos internacionais de bebidas investiram no setor. Era um mercado em crescimento e apresentava condições técnicas. Elas agregaram muitas inovações na viticultura (campo), na enologia (indústria) e na comercialização (mercado).

RM – A partir dos anos 90, a produção de vinho migrou para outras regiões do país. Quais regiões evoluíram a ponto de produzir vinhos de qualidade e quais estão despontando, pois sabe-se que a uva vinífera tem facilidades para se adaptar a diversas regiões?

JM – Poucos são os estados brasileiros onde não se produz vinhos finos.

São Paulo, Pernambuco, Santa Catarina, Paraná, Bahia, Minas Gerais e Goiás seguem o Rio Grande do Sul, pela ordem de volumes produzidos. Todos têm vinhos de qualidade, com suas tipicidades – produto das condições naturais, das variedades e métodos de produção empregados – e potencialidades. O sucesso dependerá da visão e da competência dos empreendedores, isolada e conjuntamente.

RM – Por conta dessa evolução, é possível dizer que o Brasil se tornou um produtor de nível internacional, competindo com outras regiões tradicionalmente vinculadas à indústria vinícola, como Portugal, Argentina, Chile, Espanha, França, Itália e Estados Unidos?

JM – O Brasil está entre os 15 maiores produtores mundiais. O crescimento da área plantada e do consumo ganham destaque, sendo especialmente reconhecido pela qualidade dos seus espumantes, com produção relevante também em tintos e brancos, com muitas premiações internacionais em 2024/2025, segundo dados da OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho). 

RM – O que falta para o Brasil estar entre os líderes?

JM – Muitos fatores que contribuíram para a evolução da vitivinicultura brasileira. Os avanços que já analisamos, acrescidos pelo número cada vez maior de consumidores bem-informados e interessados, fazem com que surjam novos empreendimentos. O número de confrarias espalhadas pelo país é muito grande, assim como de lojas especializadas, com ofertas de produtos nacionais e importados.

Cursos de degustação são facilmente acessados. Enoturismo em constante crescimento e, principalmente, formação técnica em todas as frentes: profissionais da enologia e da viticultura, do turismo, sommeliers, entre outros fatores. O que ainda nos falta, em nível nacional, é a cultura e a tradição que se constrói com o tempo.

RM – Como você mencionou, temos marcado presença no universo dos espumantes. Seria esse um setor de potencial latente que poderia nos inserir como referência de produto?

JM – Os espumantes brasileiros conquistam, anualmente, centenas de medalhas em concursos internacionais e já se tornaram essa referência. Falta-nos maior participação no mercado interno e externo e este é o grande desafio. Por sua cultura, tradição e condições naturais, a Serra Gaúcha representa a maior parcela. Outras regiões, como Santa Catarina e Vale do São Francisco, estão desenvolvendo o setor e alcançando excelentes resultados.

RM – As Indicações Geográficas (Denominação de Origem e Indicação de Procedência) são fator importante na credibilidade dos produtos. Hoje o Brasil conta com esses reconhecimentos em quais regiões? 

JM– As Indicações Geográficas são reconhecimentos oficiais, concedidos no Brasil pelo INPI, órgão do Ministério da Economia, órgão oficial dos registros de marcas e patentes. O país reconhece 150 Indicações Geográficas (IG), 119 Indicações de Procedência (IP) e 31 Denominações de Origem (DO) e mais 11 internacionais, totalizando 161 IGs. No setor vinícola brasileiro são duas DOs – Vale dos Vinhedos e Altos de Pinto Bandeira e onze IPs – Altos Montes, Campanha Gaúcha, Farroupilha, Monte Belo, Pinto Bandeira e Vale dos Vinhedos (RGS), Bituruna (PR), Vales da Uva Goethe e Vinhos de Altitude (SC), Vale do São Francisco (PE/BA) e Sul de Minas (MG). Outras regiões estão em busca deste reconhecimento e contam com o apoio da Embrapa, do Sebrae, do MAPA e de outras entidades voltadas à pesquisa e apoio aos produtores nacionais.

RM – Em que estágio está a indústria vinícola no Brasil hoje e onde podemos chegar, tendo em vista nosso potencial?

JM – Estamos em ritmo de crescimento no campo, na pesquisa, no ensino, no processamento e na comercialização. Muito importante nos voltarmos – como já estamos fazendo – a atender a necessidade de transmitir mais conhecimentos ao público, estimulando o interesse e a valorização dos nossos produtos. Este esforço que realizamos deverá nos incluir entre os países de cultura e tradição vinícola que representam o topo da produção e consumo do vinho. Temos que considerar que o Brasi é um país em evolução com mais de 200 milhões de habitantes.

RM – Em que estágio você insere a indústria vinícola brasileira hoje e o que falta – eventualmente – para atingirmos patamares mais elevados: qualidade de produto ou educação do consumidor?

JM – A vitivinicultura está em franco crescimento em todo o país. O empreendedorismo e o conhecimento estão alcançando fronteiras que jamais imaginamos. Um grande desafio será o de superarmos as dificuldades que o problema de “escala de produção” nos traz. Volumes menores geram custos mais elevados, mais difíceis de repassar ao mercado. Foi a motivação para o surgimento de algumas entidades do setor, a união de produtores para alcançar volumes para compra e venda de seus produtos. A educação do consumidor será sempre o grande desafio que movimenta toda a cadeia.

O setor vinícola brasileiro tem potencial real de crescimento, impulsionado por tendências como enoturismo, diversidade de rótulos, melhora de qualidade e integração com canais digitais de venda. Para investidores e empreendedores com visão de longo prazo, esses fatores indicam oportunidades atrativas, especialmente em nichos de identidade regional e agregação de valor, embora exijam estratégia clara para ampliar o consumo incipiente em mercado nacional consolidado.

Jaime Milan, especialista em vinhos e consultor da APROVALE: “A educação do consumidor será sempre o grande desafio que movimenta toda a cadeia”.

Compartilhe nas redes:

Boletim por E-mail

GZM NEWS

Cadastre seu e-mail e receba nossos informativos e promoções.

publicidade

Recentes da GZM

Mais sessões