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Ser dono tem um custo diferenciado. E ninguém te conta isso

Paulo Motta também lidera a holding The Networkers, com centralização em frentes de negócios em agenciamento artístico, inteligência comercial, experiências de alto padrão e networking corporativo
Por Paulo Motta, empresário, investidor e especialista em gestão de ativos com trajetória marcada por visão estratégica e capacidade de execução. Sócio da IMvester, atua na estruturação e operação de investimentos imobiliários com presença no Brasil, Portugal e Estados Unidos

Quando alguém diz que quer ser dono do próprio negócio, quase sempre está falando de liberdade. Liberdade de horário, de decisão, de estratégia. O que raramente aparece na conversa é o preço disso tudo. Não o teórico, mas o real. Aquele que começa a ser cobrado quando o negócio cresce, o caixa aperta ou o risco deixa de ser hipótese e vira rotina.

Ser dono tem um custo diferenciado porque o dono é o último da fila. O último a receber, o último a descansar, o último a se ausentar. Quando tudo vai bem, a empresa é “nossa”. Quando algo sai errado, a responsabilidade tem nome, sobrenome e CPF.

No Brasil, esse custo começa pelo dinheiro. Em um cenário de juros historicamente elevados, com a taxa básica em 15% ao ano, o capital deixa de ser ferramenta e passa a ser vigilante. Crédito existe, mas cobra pressa. Giro custa caro. Crescer sem capital próprio virou um exercício de precisão cirúrgica. Para o patrão, isso significa viver em estado permanente de atenção ao caixa, porque errar um cálculo hoje pode comprometer anos de trabalho amanhã.

Depois vem o custo estrutural, menos visível, mas igualmente pesado. A carga tributária brasileira gira em torno de um terço do PIB, mas o número isolado não conta a história inteira. O que pesa de verdade é a complexidade. Obrigações adicionais, interpretações, mudanças constantes de regra, fiscalizações. Não paga apenas imposto. Ele paga com tempo, com energia mental e com decisões adiadas porque precisa resolver o que não gera valor, mas é obrigatório.

Há também o custo da sobrevivência. Dados do IBGE mostram que menos da metade das empresas brasileiras consegue ultrapassar cinco anos de vida. Isso significa que empreender, na prática, não é só sobre visão ou talento. É sobre resistência. E quando uma empresa fecha, o impacto não é distribuído de forma justa. Funcionários seguem para outros empregos. Fornecedores ajustam rotas. O empregador fica com a dívida, a frustração e, muitas vezes, a depressão.

Existe um custo que quase nunca entra em relatório algum: o custo psicológico de ser dono. É o peso de decidir todos os dias sem garantia de acerto. É carregar problemas que não podem ser terceirizados. É não ter com quem dividir a angústia de uma folha pesada, de um cliente importante que saiu, de um investimento que não retornou. É acordar cansado sem poder demonstrar cansaço. A economia mundial já reconhece que ansiedade e depressão têm impacto direto na produtividade, mas no empreendedor esse impacto é amplificado, porque a empresa depende do estado mental de quem decide.

Por isso, o custo diferenciado de ser dono não está apenas no balanço. Ele está na solidão da decisão, na fadiga acumulada, na responsabilidade contínua. Dono não “desliga”. Ele administra riscos mesmo quando está em casa, mesmo quando está de férias, mesmo quando tenta dormir.

Ignorar esse custo é caro. Os empresários que mais sofrem não são os que erram, mas os que acreditam que precisam suportar tudo sozinhos. Os que não criam método, não estruturam decisões, não constroem reservas, não investem em governança mínima e confundem coragem com improviso.

Ser dono exige maturidade emocional, disciplina financeira e humildade estratégica. Exige entender que liberdade sem estrutura vira vulnerabilidade. E que cuidar da própria lucidez não é luxo, é parte do negócio.

Ninguém fala isso no começo porque o sonho vende mais do que a responsabilidade. Mas quem permanece no jogo aprende, cedo ou tarde, que ser dono não é só mandar. É sustentar. Num país com mais de 24,2 milhões de empresas ativas, essa reflexão é mais que necessária. É fundamental.

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