As mudanças climáticas deixaram de ser uma previsão distante e um assunto restrito a cientistas e se tornaram parte do nosso cotidiano. Hoje sabemos que as alterações no clima afetam todas as formas de vida na Terra, a nossa saúde e os sistemas alimentares. Também se tornou evidente que seus impactos tendem a ser mais intensos e desastrosos para populações mais vulneráveis. Essa nova realidade pressiona governos, empresas e instituições de ensino e pesquisa a repensarem o futuro e sua atuação.
É nesse cenário que precisamos reconhecer a importância da presença de jovens nas ruas, nas instituições de ensino e nos espaços internacionais de decisão se fortalece, garantindo que as vozes de quem viverá as consequências das escolhas atuais também participem do processo decisório global.
Com esse entendimento, um grupo de estudantes da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP participará, pela primeira vez, de uma das Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP). Em sua 30ª edição, a COP30 ocorre pela primeira vez no Brasil, na cidade de Belém. A COP acontece em um contexto de intensificação dos efeitos das mudanças no clima e da necessidade de metas ambiciosas. Será a primeira vez que esses jovens acompanharão de perto o principal espaço global de negociação climática, integrando a comitiva acadêmica coordenada pela professora Nathália Nascimento, da Esalq-USP.
A comitiva, em parceria com a Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e com apoio do instituto Ideflor-Bio, realizará o Simpósio Floresta e Clima, no dia 17 de novembro. O evento reunirá cientistas, graduandos da área florestal e sociedade civil para discutir ações e metas climáticas justas e responsabilização dos setores de maior emissão. A comitiva e a professora também acompanharão a agenda oficial, com participação na Blue Zone e Green Zone e a programação paralela. Em sua programação, os estudantes atuarão observando negociações entre delegações internacionais e participando de eventos promovidos por movimentos juvenis, povos indígenas, cientistas e governos. A experiência permitirá o desenvolvimento de habilidades como leitura geopolítica, diplomacia científica, negociação, comunicação estratégica e diálogo intercultural.
Estar na Amazônia confere dimensão única à vivência. Para além das imagens e mapas vistos em sala de aula, os estudantes estarão imersos em um território vivo, diverso e complexo. Encontros com pesquisadores locais, diálogo com comunidades amazônicas e atividades em instituições da região permitirão compreender, de forma direta, temas como conservação da biodiversidade, economia da floresta, sistemas alimentares, saberes tradicionais, conflitos territoriais e a potência cultural amazônica. A experiência será fundamental para desconstruir visões simplificadas e aproximar a Universidade da realidade amazônica e de suas urgências socioambientais.
Assim, a participação na COP30 representa, para os estudantes, mais do que um exercício de observação diplomática, pois permitirá a compreensão de que a ciência e a política se encontram em negociações complexas, repletas de interesses econômicos e geopolíticos e com impacto na realidade de toda a sociedade. Espera-se que essa experiência contribua para que esses jovens, futuros profissionais da área ambiental e florestal, adquiram, ampliem seu repertório de conhecimento e vivências, com visões de mundo mais diversas e críticas. Tornando-se capazes de compreender sistemas socioambientais a partir de múltiplas perspectivas, reconhecer a diversidade cultural e os saberes tradicionais como pilares do futuro sustentável, comunicar temas complexos com empatia e clareza, articular ciência, sociedade e política pública, desenvolver visão global ancorada na realidade brasileira e atuar em processos coletivos e colaborativos de tomada de decisão.
Essas vivências fortalecem competências indispensáveis para a liderança no século 21, que exige negociação, escuta ativa, diplomacia, mediação de conflitos, empatia e pensamento sistêmico. Em um mundo em transformação, onde crises ambientais, climáticas e sociais se entrelaçam, a humanidade e a capacidade de diálogo tornam-se tão importantes quanto o conhecimento técnico.
Ao retornar à USP, a comitiva se compromete a multiplicar o aprendizado. No dia 27 de novembro, às 14h, no Departamento de Ciências Florestais da Esalq, será realizado um Balanço Ético Global (BEG) — iniciativa das Nações Unidas e do Governo Federal para discutir metas de redução de emissões e transições justas. Também estão previstas rodas de conversa e a divulgação de um relatório de viagem, ampliando o alcance do conhecimento adquirido na COP.
A jornada desses jovens sintetiza o papel da Universidade diante da emergência climática de formar profissionais críticos, sensíveis, engajados e preparados para atuar em um mundo que exige respostas rápidas, inovadoras e socialmente justas. Em Belém, ao lado da maior floresta tropical do planeta, os estudantes da USP não irão apenas observar o debate sobre o futuro, eles serão parte dele.