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Visão de longo prazo como estratégia de país

Editorial da GZM do dia 02 de fevereiro de 2026 sobre a degradação do Cerrado no Brasil

Um país sem visão de longo prazo continua apostando no curto prazo até o dia em que a conta chega. Quando se olha para o Cerrado — bioma que já perdeu mais de 55% da vegetação nativa em pouco mais de meio século, segundo revisão científica publicada na Nature Conservation — essa conta não é abstrata: ela aparece em energia mais cara, água mais escassa, safra mais instável, infraestrutura mais vulnerável e reputação internacional em queda. A degradação do “berço das águas” brasileiro é um caso emblemático de como a ausência de estratégia de país transforma vantagem comparativa em passivo econômico.

Quando o curto prazo manda, o longo prazo cobra

O avanço da agricultura sobre o Cerrado, como lembram os estudos recentes, foi a principal causa da perda de mais de 1 milhão de km² de vegetação nativa nas últimas cinco décadas. Em termos de PIB, isso ajudou a empurrar o agronegócio para perto de 30% da economia e mais de 40% das exportações. Ótimo no curto prazo. Mas, na mesma operação, o país foi desmontando a infraestrutura ecológica que sustentava esse crescimento: sistemas de recarga de aquíferos, regulação de chuvas, controle de erosão, manutenção de solos férteis.

Isso não é retórica ambientalista; é matemática de risco. Relatórios como “The Cerrado: Production and Protection”, do Fórum Econômico Mundial, mostram que o bioma armazena 14% da água superficial do país e dá suporte a cerca de 60% da geração hidrelétrica. Quando a vegetação some, evapotranspiração cai, infiltração diminui e a resposta do sistema hídrico a chuvas extremas se torna mais errática, combinando enchentes e secas. Em cenários projetados para o Matopiba, um estudo da Aidenvironment calcula que o desmatamento do Cerrado já contribuiu para queda de 8,4% na chuva anual em algumas áreas nos últimos 30 anos e para um regime mais irregular de precipitação — nada trivial para uma agricultura majoritariamente de sequeiro.

O ponto não é negar a importância do agro. É reconhecer que um modelo de expansão que trata vegetação nativa como “estoque infinito” é, por definição, de prazo curto. Estratégia de país precisaria enxergar a fronteira agrícola não como fim em si, mas como parte de um sistema mais amplo que inclui água, energia, clima, solo, biodiversidade e mercados internacionais cada vez mais sensíveis a tudo isso.

Naturalizar a degradação é abrir mão de competitividade

A revisão citada por The Conversation fala em “crise estrutural” e em “perda silenciosa” no Cerrado: habitats se fragmentam, espécies desaparecem sem sequer terem sido descritas, processos ecológicos básicos são comprometidos. Para a economia, essa “naturalização” do dano tem efeito perverso: vai ficando mais difícil perceber a linha em que o custo marginal da destruição passa a superar o ganho marginal da produção.

Enquanto isso, o mundo se move. Novas taxonomias verdes, exigências de rastreabilidade, cláusulas ambientais em acordos comerciais, métricas de risco climático em portfólios de investimento — tudo empurra países a provar que conseguem produzir sem destruir. Quando a ciência vem a público dizer que o principal bioma agrícola do Brasil perdeu mais da metade de sua cobertura vegetal e mantém menos de 10% de toda a sua área sob algum tipo de proteção, o sinal que se envia a importadores e investidores é o oposto da previsibilidade.

A ironia é que o país tem, no papel, instrumentos para virar esse jogo: metas de recuperação de 40 milhões de hectares de pastagens degradadas até 2033, anunciadas no Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas; compromissos de neutralidade de carbono; iniciativas de pagamento por serviços ambientais e de créditos de biodiversidade em discussão. O que falta não é diagnóstico, mas a coragem política de tratar esses programas como eixo de estratégia de desenvolvimento — e não como apêndice de discurso climático.

Estratégia de país começa em onde o mapa acaba

Quando se fala em “visão de longo prazo”, é comum pensar em câmbio, taxa de juros, dívida pública, educação. Tudo isso é indispensável. Mas um país continental como o Brasil não pode se dar ao luxo de desconsiderar seu capital natural nessa equação. A agenda do Cerrado revela, de forma didática, três dimensões de uma estratégia de longo prazo que teimamos em adiar:

  1. Dimensão produtiva: o Brasil poderia dobrar produção de alimentos recuperando pastagens degradadas, sem derrubar mais um hectare de vegetação nativa, como reconhece o próprio governo em documentos à ONU. Cada hectare “novo” aberto à custa de Cerrado intacto é, portanto, uma opção política — não uma necessidade.
  2. Dimensão de risco: estudos mostram que proteger vegetação nativa em áreas de recarga hídrica reduz risco de apagões, crise hídrica e colapso de safras. Ignorar isso é o equivalente ecológico de subinvestir em manutenção de usinas e linhas de transmissão.
  3. Dimensão de reputação e acesso a mercados: a capacidade de mostrar que se produz em paisagens com desmatamento zero ou próximo disso será, cada vez mais, condição de permanência em cadeias globais. Países que forem incapazes de reorganizar suas fronteiras produtivas perderão competitividade antes de perder produção.

Em todos os casos, a pergunta que exige resposta é: qual Cerrado o Brasil quer ter em 2035? Um mosaico de remendos, com água cara e safra volátil, ou um bioma gerido como infraestrutura estratégica, com fronteiras claras para expansão, metas robustas de recuperação e instrumentos financeiros que remunerem a conservação?

Deixar de reagir: o custo da não-decisão

Visão de longo prazo não é utopia; é método. No caso do Cerrado — e de tantos outros “acontecimentos silenciosos” que moldam o futuro dos negócios — ela passa por três movimentos mínimos:

  • Colocar o tema na mesa certa: ecossistemas não podem ser tratados apenas como pauta ambiental. Têm de entrar na sala em que se discute política industrial, agrícola, energética e comercial. Enquanto a degradação for problema “do Ministério do Meio Ambiente”, o resto do governo continuará tomando decisões que a aprofundam.
  • Criar incentivos alinhados com o discurso: não faz sentido anunciar metas de desmatamento zero e, ao mesmo tempo, manter linhas de crédito público que financiam expansão de fronteira em áreas de alto risco ambiental. Crédito, seguro rural, compras públicas e incentivos fiscais precisam ser reorganizados para premiar quem recupera e conserva — e não quem insiste no desmatamento como modelo de negócio.
  • Assumir que não decidir também é decidir: adiar a definição de uma estratégia clara para o Cerrado é, na prática, optar por um cenário em que a degradação continua até que fatores externos — crises hídricas, apagões, perda de mercados — imponham uma correção de rota muito mais cara.

Vale ser direto: visão de longo prazo como estratégia de país exige olhar para além do ciclo eleitoral e aceitar que algumas decisões custam votos hoje para evitar o colapso de amanhã. A destruição acelerada do Cerrado é um desses casos‑teste. Se o Brasil não for capaz de frear a degradação justamente no bioma que sustenta água, energia e boa parte do agronegócio, a narrativa de potência verde ficará restrita aos palcos de conferências — enquanto, na vida real, a economia seguirá perdendo competitividade por falta da coisa mais básica que um país precisa para planejar o futuro: coerência entre discurso e território.

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