A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém, tem sido palco de articulações estratégicas entre representantes do setor produtivo e autoridades globais. Agropecuária, mineração e indústria — três pilares da economia brasileira — buscam protagonismo na construção de uma transição energética e climática que seja ao mesmo tempo justa, viável e competitiva.
Agropecuária: produtividade com baixa emissão
Durante a COP30, realizada em Belém (PA), o setor agropecuário brasileiro tem se articulado para se posicionar como parte da solução frente à crise climática. A Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e outras entidades setoriais, além do próprio Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), defendem que o Brasil pode liderar uma agricultura sustentável, resiliente e de baixo carbono, conciliando produtividade com preservação ambiental.
O Mapa participa da COP30 com uma série de iniciativas voltadas à agricultura sustentável, com destaques para a restauração de terras degradadas e incentivo à recuperação de pastagens, a redução do uso de fertilizantes químicos, com foco em bioinsumos, e o zoneamento Agrícola de Risco Climático para orientar o plantio em áreas menos vulneráveis.
O Ministério divulgou ainda que participa em quatro Planos de Aceleração de Soluções (PAS) da Agenda de Ação da COP30, buscando reforçar o compromisso com a segurança alimentar e a adaptação do campo às mudanças climáticas
O paradigma da relevância econômica e vulnerabilidade climática
O agronegócio representa cerca de 24% do PIB brasileiro e é responsável por grande parte das exportações nacionais. Ao mesmo tempo, é um dos setores mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas, como secas prolongadas, ondas de calor e chuvas intensas, que afetam diretamente a produtividade agrícola e a segurança alimentar.
Segundo o documento “Agronegócio Frente às Mudanças Climáticas”, elaborado por especialistas e apresentado como referência para a COP30 pela ABAG, o setor já adota diversas práticas que contribuem para a redução de emissões e aumento da resiliência:
- Sistema de Plantio Direto (SPD): reduz erosão, melhora a estrutura do solo e aumenta o sequestro de carbono.
- Sistemas integrados (ILPF): combinam lavoura, pecuária e floresta, promovendo biodiversidade e eficiência no uso da terra.
- Recuperação de pastagens degradadas: melhora a produtividade e restaura estoques de carbono no solo.
- Uso de biocarvão e intemperismo acelerado de rochas: tecnologias emergentes para captura de CO₂ e melhoria da fertilidade.
- Cultivo de variedades resistentes a estresses climáticos: desenvolvidas por instituições como Embrapa e IAC.
Essas práticas, segundo aponta o documento, são reconhecidas por organismos internacionais como FAO e Banco Mundial como parte da chamada agricultura climaticamente inteligente e é parte da bandeira do setor no evento.
Financiamento climático e mercado de carbono
Um dos principais desafios apontados pelo setor é o acesso ao financiamento climático. A falta de métricas harmonizadas para mensurar mitigação e adaptação dificulta a atração de investimentos.
Para combater isso, a Abag propõe no evento medidas como a criação de taxonomia verde e rastreabilidade das cadeias produtivas, a integração com mercados de carbono e pagamento por serviços ecossistêmicos e o fortalecimento da assistência técnica e extensão rural (ATER). Segundo a associação, essas medidas visam garantir segurança jurídica e ampliar o acesso de produtores a recursos para transição sustentável.
Posicionamento político e advocacy
Durante a COP30, o setor agropecuário tem participado de fóruns e painéis com representantes do governo, academia e sociedade civil. A meta é mostrar que o agro brasileiro pode ser um vetor de transformação na agenda climática, contribuindo com soluções concretas para adaptação, mitigação e segurança alimentar.
Mineração na COP30: entre a responsabilidade socioambiental e a soberania mineral
Já o setor mineral brasileiro tem se mobilizado para apresentar uma nova narrativa: a de que a mineração pode — e deve — ser parte da solução climática. Com forte presença institucional e empresarial, a agenda da mineração na conferência gira em torno da sustentabilidade, da governança dos minerais críticos e da valorização da produção nacional como vetor da transição energética global.
A Agência Nacional de Mineração (ANM) tem participado ativamente da COP30 com uma agenda de painéis e encontros estratégicos. O diretor José Fernando de Mendonça Gomes Júnior tem representado a instituição em debates sobre governança ambiental e rastreabilidade mineral, minerais críticos e estratégicos para a transição energética e soluções sustentáveis para recuperação de áreas degradadas e justiça socioambiental.
Segundo a ANM, o Brasil ocupa uma posição estratégica na nova geopolítica da energia limpa, com reservas relevantes de elementos como lítio, níquel, cobre e terras raras — insumos essenciais para baterias, turbinas e veículos elétricos.
Sustentabilidade e desenvolvimento regional
Vale lembrar que o estado do Pará, sede da COP30, concentra cerca de 90% da produção nacional de cobre e 42% da arrecadação da CFEM (Compensação Financeira pela Exploração Mineral). A região é vista como um laboratório de desafios e oportunidades, onde se busca conciliar o desenvolvimento local com inclusão social, a infraestrutura integrada e qualificação da mão de obra e a articulação entre mineração, bioeconomia e transição energética.
A ANM tem divulgado no evento que “defende uma mineração rastreável, transparente, socialmente responsável e ambientalmente segura, com foco em benefícios duradouros para as comunidades e o território”.
Minerais críticos e soberania nacional
A transição para uma economia de baixo carbono depende de minerais como lítio, cobre, níquel e terras raras — todos abundantes no território brasileiro. De maneira geral, o setor defende que o Brasil deve assumir papel de liderança global na produção desses insumos estratégicos, com foco em agregação de valor local, evitando a simples exportação de matéria-prima, rastreabilidade e certificação ambiental das cadeias produtivas e governança transparente e participação social nos territórios minerados.
Empresas como a Hydro e a Vale tem apresentado cases de uso de energia renovável, recuperação de áreas degradadas e programas de desenvolvimento comunitário. A Hydro, por exemplo, destacou o uso de energia limpa em suas operações no Pará, enquanto a Vale anunciou investimentos em tecnologias de baixo carbono e metas de neutralidade climática.
O setor também tem buscado se distanciar da imagem de degradação ambiental, reforçando compromissos com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e com a bioeconomia amazônica.
Justiça climática e desafios
Apesar dos avanços, organizações da sociedade civil alertam para os riscos de uma “corrida verde” por minerais críticos que repita padrões de exploração predatória. Entidades sociais organizadas têm destacado que comunidades afetadas por grandes projetos minerários ainda enfrentam desafios relacionados a contaminação de rios e solos, conflitos fundiários e violações de direitos de comunidades tradicionais e falta de consulta prévia e compensações adequadas.
Já o setor mineral da Amazônia, representado por empresas e entidades como o Ibram e o Simineral, também tem buscado mostrar que é possível aliar mineração e sustentabilidade. A proposta é apresentar cases de boas práticas, como recuperação de áreas mineradas, uso de energia limpa e programas de desenvolvimento comunitário, reforçando o compromisso com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Como se vê, a participação do setor mineral na COP30 sinaliza uma tentativa de reposicionamento estratégico: de vilão ambiental a parceiro da transição energética. A efetividade desse movimento dependerá da capacidade de transformar compromissos em práticas verificáveis e de garantir que os benefícios da mineração sejam amplos, duradouros e socialmente justos.
Indústria: descarbonização e reindustrialização verde
No setor industrial, um dos mais atuantes na agenda da COP30, entidades, empresas e representantes marcaram presença no lançamento da Declaração de Belém para a Industrialização Verde, com adesão de 35 países e organizações. A iniciativa busca ações como acelerar a transição energética na indústria, com uso de hidrogênio verde, eletrificação e eficiência energética, fomentar cadeias produtivas sustentáveis com menor pegada de carbono e apoiar a reindustrialização do Brasil com base em inovação, bioeconomia e tecnologias limpas.
De forma geral, o setor industrial brasileiro tem se destacado por uma atuação coordenada e propositiva na agenda climática. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), federações estaduais e empresas de diversos segmentos estão presentes com estande próprio, painéis temáticos e propostas concretas para acelerar a transição para uma economia de baixo carbono.
Segundo Ricardo Alban, presidente da CNI, “o momento é de agir”, e a indústria brasileira está pronta para liderar soluções que conciliem desenvolvimento econômico e responsabilidade ambiental.
Entre os setores, a indústria tem sido percebida como o que mais promoveu ações durante o evento. O estande da CNI, por exemplo, tem servido como espaço de diálogo, exposição de projetos e articulação institucional. A cobertura da primeira semana do evento mostrou que o Sistema Indústria está entre os principais atores da conferência, com propostas concretas e capacidade de mobilização.
O setor busca mostrar que a atuação da indústria brasileira já sinaliza um novo ciclo de engajamento climático, com foco em inovação, competitividade e protagonismo global. Assim como os demais setores, o desafio agora será transformar compromissos em resultados mensuráveis e duradouros.
A COP em Belém irá acontecer até o próximo dia 21 de novembro e a GZM seguirá acompanhando os debates e ações.