As remessas internacionais, que movimentam bilhões de dólares todos os anos e fazem parte da vida de milhões de famílias em todo o mundo, estão sob escrutínio. Um relatório global da Chubb, empresa especializada em seguros com presença em 54 países, revela que os remetentes enfrentam riscos significativos — especialmente os trabalhadores da economia informal e da gig economy — em meio à crescente popularização das contas globais e da digitalização dos serviços financeiros.
O estudo, intitulado “The Remittance Trust Trap: Revealing Hidden Vulnerabilities”, foi conduzido com 3.500 remetentes em seis países (Estados Unidos, Reino Unido, Espanha, Emirados Árabes Unidos, Singapura e Austrália) e apresenta o primeiro Sender Market Vulnerability Index (SMVI), que avalia a vulnerabilidade dos remetentes em três dimensões: econômica, social e tecnológica.
Principais achados do relatório
- Confiança excessiva: 78% dos entrevistados confiam nos serviços de remessa, mas apenas 42% conhecem os riscos envolvidos.
- Exposição tecnológica: 25% já sofreram tentativa de fraude digital.
- Dependência social: 65% enviam dinheiro regularmente para familiares que dependem exclusivamente dessas transferências.
- Baixa proteção: Apenas 18% possuem algum tipo de seguro ou proteção contra falhas na remessa.
Segundo o porta-voz da Chubb, “o estudo mostra que, apesar da confiança, há uma lacuna crítica na proteção dos remetentes. É preciso repensar o modelo de remessas com foco em segurança, transparência e inclusão financeira”.
Contas globais em alta no Brasil
No Brasil, o cenário das remessas e operações em moeda estrangeira está em rápida transformação. Pesquisa do C6 Bank em parceria com Ipsos-Ipec revela que 31% dos brasileiros das classes A e B já possuem contas em moeda estrangeira — um salto de 19 pontos percentuais em três anos. Na classe A, esse número chega a 45%.
Os principais usos dessas contas incluem:
- Viagens internacionais (36%)
- Investimentos em ativos estrangeiros (33%)
- Planejamento de viagens futuras (33%)
- Poupança em moeda forte (30%)
A adesão é especialmente alta entre jovens de 25 a 34 anos, com 41% já utilizando contas globais. A popularização dessas contas reflete mudanças regulatórias, avanço da digitalização e maior concorrência entre instituições financeiras, que agora oferecem acesso facilitado via aplicativos e tarifas competitivas.
A recente elevação da alíquota do IOF sobre operações de câmbio também influenciou o comportamento dos usuários. Segundo a pesquisa:
- 50% consideram mudar os planos de uso da conta
- 36% manteriam os planos atuais
- 14% não entenderam o impacto da medida
Esse cenário reforça a importância da educação financeira e da transparência nas operações internacionais, especialmente em um momento de expansão das remessas e da internacionalização dos serviços bancários.
Fluxo internacional de capitais e contas no exterior
O Brasil registra um fluxo líquido de capitais historicamente volátil. Em julho de 2025, o país teve um déficit de US$ 10 bilhões na conta de capital e financeira. Segundo o Banco Central, os capitais brasileiros no exterior — que incluem valores, bens e ativos de qualquer natureza — devem ser declarados quando ultrapassam US$ 1 milhão em valor anual. Essa movimentação é feita por famílias, investidores e empresas, e reflete uma crescente busca por diversificação e proteção cambial.
A abertura financeira permite que pessoas físicas e jurídicas residentes no Brasil realizem aplicações no exterior em qualquer modalidade regularmente praticada no mercado internacional, desde que observadas as normas legais. Ainda assim, o país enfrenta desafios estruturais e de cultura, uma delas a internacionalização das empresas brasileiras, que segue em níveis baixos, embora com tendência de alta, impulsionada pela necessidade de competir em um mercado cada vez mais globalizado.
Nômades digitais e novo padrão de consumo
Outro fenômeno que contribui para o aumento das contas globais e remessas internacionais é o crescimento dos nômades digitais. Profissionais que atuam remotamente de diferentes partes do mundo, sem alterar seu domicílio fiscal, estão redefinindo o padrão de consumo e trabalho. Essa mobilidade exige soluções financeiras flexíveis, seguras e acessíveis — como contas em moeda estrangeira, transferências internacionais e investimentos fora do país.
Esse novo perfil de consumidor, aliado à digitalização dos serviços financeiros, está acelerando a demanda por produtos bancários internacionais e pressionando o sistema a oferecer mais proteção, transparência e inclusão.
Remessas como elo de sobrevivência e interdependência global
A combinação dos dados da Chubb e da pesquisa C6 Bank/Ipsos-Ipec revela um panorama complexo: enquanto cresce o acesso a instrumentos financeiros internacionais, persistem vulnerabilidades estruturais entre os remetentes — tanto consumidores quanto empresas.
As remessas não são apenas transações monetárias. Elas, muitas vezes, representam elos de sobrevivência para milhões de famílias, fomentam economias locais e refletem a interdependência global. E para que cumpram esse papel com segurança, é preciso garantir proteção jurídica, tecnológica e social aos remetentes — e acompanhar de perto os movimentos de capital que conectam o Brasil ao mundo.
A GZM aprofundou o assunto sobre temas que impactam o cenário do fluxo internacional de recursos e conversou com dois especialistas, Lucas Goulart, cofundador da Rio Negro Investimentos, e João Gentina, especialista em investimentos no exterior na WIT Invest. Confira:
GZM: Quais são os principais desafios enfrentados por empresas brasileiras ao realizar remessas internacionais em 2025?
Lucas Goulart: Os principais desafios são o custo, a burocracia regulatória e a volatilidade da moeda. As empresas precisam planejar cuidadosamente cada operação para proteger margens e garantir previsibilidade. Além disso, o IOF passou a ser um fator relevante no planejamento das remessas, tornando o custo das operações internacionais mais significativo.
João Gentina: Hoje, o maior deságio para as empresas é a volatilidade que o dólar vem apresentando. Pense que as empresas precisam de uma previsibilidade nos custos delas, mas temos uma oscilação que saiu de R$6,10 no começo do ano para R$5,30, aproximadamente.
Mas, além disso, com a insegurança jurídica que tivemos com a mudança de IOF, que aconteceu em Julho de 2025, o principal ponto para todos os nossos clientes é como isso impacta no custo direto do produto. Há ainda riscos de mudanças repentinas na regulação brasileira, que podem alterar custos de forma inesperada.
GZM: Como o IOF impacta as estratégias de internacionalização e investimentos externos das empresas?
Lucas Goulart: O impacto é direto sobre o fluxo de caixa e a rentabilidade das operações. Por exemplo: antes, pagamentos de serviços e royalties tinham alíquota de 0,38%, e empréstimos externos de curto prazo eram isentos. Agora, essas operações passaram a ter incidência de 3,5%, o que exige maior atenção na estrutura de crédito e pode encarecer as operações.
João Gentina: Principalmente no custo destas empresas. Pense que agora o IOF chega a 3,5%, antes sendo no máximo em 1,10%. Se a empresa tinha uma expectativa de fazer investimentos, o custo total dela poderia chegar até 5%, considerando que hoje estamos com uma taxa de juros nos US em torno de 4,5%, custaria praticamente um ano de rentabilidade somente o envio do recurso para fora.
Muitas empresas hoje estão trabalhando já com um caixa fora do Brasil, pois evita as remessas sucessivas e a incidência de impostos. Desta maneira, estamos incentivando estruturas entre as empresas como empréstimos, capitalização e outras alternativas.
De maneira geral, as empresas estão precisando cada dia mais aumentar os custos administrativos para conseguir fazer um melhor planejamento fiscal e cambial.
GZM: Há riscos jurídicos ou regulatórios específicos que as empresas devem observar ao operar com contas globais?
Lucas Goulart: Sim. É fundamental estar em conformidade com as regras do Banco Central, da Receita Federal e das normas internacionais de compliance, incluindo prevenção à lavagem de dinheiro. Falhas nessa frente podem gerar problemas fiscais ou de reputação. Por isso, a importância de uma assessoria especializada e a utilização de parceiros e plataformas com boa governança corporativa.
João Gentina: Inúmeros riscos. Temos algumas obrigações para com o banco central e a receita, como declarações e outros. Caso a empresa falhe com essas informações, já começamos com risco de multas e possíveis questionamentos.
Outro ponto seria uma possível bitributação destes recursos, mudanças como possíveis sanções e ou congelamento de recursos de forma unilateral devido a problemas geopolíticos. As empresas estão cada vez mais se fortalecendo juridicamente para reduzir as vulnerabilidades.
GZM: Quais são as melhores práticas para mitigar riscos cambiais em operações recorrentes de remessa?
Lucas Goulart: Existem estratégias eficazes como o uso de derivativos ou a diluição das remessas ao longo do tempo. Essas medidas ajudam a proteger margens e a trazer previsibilidade às operações.
João Gentina: A maior prática e mais eficaz seria os hedges cambiais, contratos que nos permitem fixar as taxas futuras, trazendo previsibilidade aos fluxos de caixa. Uma prática muito comum acaba sendo o envio fracionado, pois ao longo prazo ajuda a suavizar todos os impactos da volatilidade da moeda.
GZM: Como o avanço das fintechs e bancos digitais tem influenciado o custo e a agilidade das remessas corporativas?
Lucas Goulart: As fintechs, em alguns casos, reduziram custos e aumentaram a agilidade para as remessas. No entanto, principalmente nas operações de maior porte, é importante contar com a robustez e cobertura regulatória dos bancos e corretoras sólidas com reputação reconhecida . Além disso, sempre que possível é importante envolver um assessor ou especialista em um planejamento que auxilie na mitigação de riscos e acompanhe a execução das operações do início ao fim.
João Gentina: Elas estão revolucionando e facilitando cada dia mais, trazendo uma maior agilidade e menor dependência. Porém, temos alguns riscos intrínsecos a isto, pois estamos com uma menor robustez regulatória. Essas empresas lidam com menores quantidades de movimentação financeira, correndo o risco de liquidez e até possíveis fraudes.
Apesar disso, com toda a certeza, elas aumentaram a competitividade e forçaram as grandes instituições financeiras a evoluir neste processo.
